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Q3699689 Português

Leia o texto 1 para responder a questão


O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro (trecho)


    “O Brasil e os brasileiros, sua gestação como povo, é o que trataremos de reconstituir e compreender nos capítulos seguintes. Surgimos da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos.


     Nessa confluência, que se dá sob a regência dos portugueses, matrizes raciais díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo (Ribeiro, 1970), num novo modelo de estruturação societária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais delas oriundos. Também novo porque se vê a si mesmo e é visto como uma gente nova, um novo gênero humano diferente de quantos existam.


      Povo novo, ainda, porque é um novo modelo de estruturação societária, que inaugura uma forma singular de organização socioeconômica, fundada num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. Novo, inclusive, pela inverossímil alegria e espantosa vontade de felicidade, num povo tão sacrificado, que alenta e comove a todos os brasileiros. 


     Velho, porém, porque se viabiliza como um proletariado externo. Quer dizer, como um implante ultramarino da expansão europeia que não existe para si mesmo, mas para gerar lucros exportáveis pelo exercício da função de provedor colonial de bens para o mercado mundial, através do desgaste da população que recruta no país ou importa.


     A sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos. O Brasil emerge, assim, como um renovo mutante, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa, cujas potencialidades insuspeitadas de ser e de crescer só aqui se realizariam plenamente.


      A confluência de tantas e tão variadas matrizes formadoras poderia ter resultado numa sociedade multiétnica, dilacerada pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Ocorreu justamente o contrário, uma vez que, apesar de sobreviverem na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros os signos de sua múltipla ancestralidade, não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais, vinculadas a lealdades étnicas próprias e disputantes de autonomia frente à nação.”


No termo em negrito na 1ª linha do segundo parágrafo do texto, a retirada das vírgulas: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: O assunto cobrado é pontuação, especificamente o uso das vírgulas em orações subordinadas adjetivas (relativas) e como sua presença ou ausência altera o sentido e a função sintática dessas orações conforme a norma-padrão.

Regra gramatical envolvida: Segundo a gramática normativa (Evanildo Bechara, Celso Cunha & Lindley Cintra), as orações subordinadas adjetivas dividem-se em:

  • Explicativas: acrescentam informação acessória, sempre separadas por vírgulas.
  • Restritivas: restringem o sentido do termo antecedente, nunca separadas por vírgulas.

Por exemplo: “Os químicos, que estudam muito, passam no concurso.” (Todos os químicos estudam muito - explicativa). Já: “Os químicos que estudam muito passam no concurso.” (Apenas parte dos químicos - restritiva).

Análise da alternativa correta:

A) Altera o valor explicativo da Oração subordinada relativa.Certa. Ao remover as vírgulas da oração “que se dá sob a regência dos portugueses”, ela deixa de ser explicativa para tornar-se restritiva, mudando o significado do texto: apenas a “confluência que se dá sob a regência dos portugueses” (e não toda confluência) passa a ser o foco, o que restringe o grupo ao qual a oração se refere.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) Falso. O valor explicativo é perdido ao se retirar as vírgulas.
  • C) Incorreto, pois inicialmente não há valor restritivo. O valor se modifica — de explicativo para restritivo — com a retirada das vírgulas.
  • D) Errado. A oração é adjetiva, não apositiva.
  • E) Equivocada. O uso das vírgulas não é facultativo neste caso; ele altera o sentido e segue norma obrigatória.

Resumo estratégico — Como evitar erros: Sempre observe o uso das vírgulas em orações introduzidas por pronomes relativos (que, o qual, cuja). A mudança de pontuação quase sempre indica mudança de sentido, sendo um ponto de atenção frequente nas provas.

Conclusão: O uso da vírgula nas orações adjetivas é obrigatório quando o valor for explicativo. Ao removê-las, o sentido do texto altera-se, tornando a oração restritiva. Por isso, a resposta correta é A.

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