O dilema apresentado pela narradora se dá pela necessidade d...

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Q3878764 Português
LEIA o trecho a seguir.

A PAIXÃO SEGUNDO G. H. – Fragmento

Clarice Lispector

[...]
    Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.
[...]
    Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo – traduzir o desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse acordada não seria linguagem.
[...].

São Paulo: ALLCA XX/Scipione Cultural, 199. p. 14-15.
O dilema apresentado pela narradora se dá pela necessidade de falar. Para ela:
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a leitura metafórica do trecho "Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.": nele, a palavra/fala aparece como apoio de sobrevivência diante da mudez, o que sustenta a alternativa B.

Tema central: fala e mudez
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por extrapolação indevida. O texto não afirma que a fala seja a manifestação de "todas as angústias vividas pelo ser humano". O foco está na experiência da narradora e em sua necessidade de usar a palavra para resistir à mudez. A questão pede "Para ela", portanto não autoriza transformar essa vivência subjetiva em tese universal sobre o ser humano.
B
Certa
A alternativa B traduz corretamente a metáfora central do texto. A narradora não apresenta a fala como ornamento nem como definição abstrata da linguagem, mas como recurso necessário para não ser tragada pela mudez. A imagem da "tábua onde boiarei" atribui à palavra valor de apoio de sobrevivência diante do indizível, por isso a paráfrase "tábua de salvação para um vazio intenso" é fiel ao sentido do fragmento.
C
Errada
A alternativa troca um dado contextual e subjetivo por uma generalização absoluta. O fragmento mostra que a linguagem é, para a narradora, um modo de elaboração do vivido, como se reforça em "Entender é uma criação, meu único modo". Isso não equivale a dizer que a fala seja a única forma de comunicação do ser humano. Houve mudança indevida de sentido de "meu único modo" para uma afirmação geral sobre a humanidade.
D
Errada
A alternativa não tem apoio textual. O trecho não trata da fala como "dádiva" nem discute exclusividade humana. Esses elementos foram acrescentados pela alternativa sem base no fragmento. Trata-se, portanto, de introdução de conteúdo inexistente no texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de abandonar a metáfora decisiva e escolher alternativas grandiosas e universais. O texto fala da condição da narradora diante da mudez, não da fala como definição geral da humanidade.
Dica para questões semelhantes
  • Se o enunciado delimita "Para ela", mantenha a interpretação no ponto de vista da voz do texto e evite generalizações sobre "o ser humano".
  • Quando houver metáforas encadeadas, use esse campo de imagens para decidir o sentido central; aqui, "engolfará", "ondas", "tábua", "boiarei" e "vagalhões" orientam a leitura de salvação.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como "todas", "única" e "só" quando o texto apresenta uma vivência subjetiva e localizada.

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