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A escolha lexical do autor, especialmente na expressão fina...

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Q4113833 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.

Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
A escolha lexical do autor, especialmente na expressão final "pertencer a lugar algum" no trecho "Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum", articula uma construção de sentido que transcende a mera referência espacial. Considerando o valor semântico das palavras e seu uso contextual, é correto afirmar que:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: A decisão depende da leitura semântica contextual da expressão obrigatória "Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum." O trecho contrapõe presença, origem e pertencimento e leva "pertencer a lugar algum" para além da referência espacial, com sentido de desenraizamento subjetivo e simbólico.

Tema central: pertencimento simbólico
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o termo "fadiga" não se limita exclusivamente ao plano físico. O texto de fato apresenta desgaste corporal, mas o trecho cobrado amplia o sentido para um cansaço também subjetivo e existencial, culminando em "pertencer a lugar algum". O erro da alternativa está na exclusividade semântica.
B
Errada
Está errada porque "estar aqui" e "ser de lá" não formam simples paralelismo de localização objetiva. "Estar" marca presença circunstancial, enquanto "ser de lá" aponta origem e identidade. Esse contraste já introduz dimensão subjetiva, aprofundada na expressão final "pertencer a lugar algum".
C
Errada
Está errada porque reduz a expressão a um dado geográfico e ainda extrapola o texto. "Pertencer a lugar algum" não autoriza afirmar que o sujeito não reside fixamente em nenhuma localidade. Também não autoriza dizer que ele não mantém vínculos com nenhum grupo social específico; ao contrário, o texto menciona "família" e as perguntas "Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?", que indicam vínculos tensionados, não inexistentes.
D
Certa
A alternativa D acerta porque reconhece o valor contextual de "pertencer" como vínculo, identificação e inserção simbólica, e não como simples localização geográfica. O próprio trecho organiza uma progressão de sentido: "fadiga da viagem" ainda admite leitura concreta, "estar aqui" e "ser de lá" já mostram tensão entre presença e origem, e "pertencer a lugar algum" fecha essa sequência com sentido subjetivo-existencial de desenraizamento. Os trechos sobre as perguntas internas e sobre a família estranhada reforçam esse pertencimento fragilizado.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre sentido literal de lugar físico e sentido conotativo de pertencimento. Quem ignora que o enunciado manda ultrapassar a referência espacial tende a errar por reduzir a expressão final a moradia, deslocamento ou localização objetiva.
Dica para questões semelhantes
  • Observe se o próprio comando da questão manda ir além do sentido literal; isso restringe alternativas puramente espaciais ou objetivas.
  • Leia o encadeamento lexical inteiro, não só a expressão isolada: aqui, a sequência vai da viagem concreta ao desenraizamento subjetivo.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como "exclusivamente" e de conclusões não ditas pelo texto, como ausência total de vínculos.

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