Levando em consideração que pronomes são palavras que acomp...

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Q4068964 Português
Culto do espelho

    Um dos produtos mais curiosos da indústria cultural digital é a chamada selfie, autorretrato feito com celular que virou mania geral. Em lugares públicos e privados, o usuário, como quem porta um espelho, vira a câmera do telefone para o próprio rosto e, “espelho, espelho meu”, descobre por meio das redes sociais que não existe no mundo ninguém mais bonito do que “eu”.
    O autorretrato foi prática comum na história da pintura e da fotografia. Hoje em dia ele é hábito de quem tem um celular à mão. Em qualquer dos casos, a ação de autorretratar‐se diz respeito a um exercício de autoimagem no tempo histórico em que técnicas tradicionais como o óleo, a gravura, o desenho foram a base das representações de si. Hoje ele depende das novas tecnologias que, no mundo dos dispositivos, estão ao nosso alcance de forma mais simples.
    Não se pode dizer que a invenção da fotografia digital tenha intensificado apenas quantitativamente a arte de autorretratar‐ -se. Selfie não é fotografia pura e simplesmente, não é autorretrato como os outros. A selfie põe em questão uma diferença qualitativa. Ela diz respeito a um fenômeno social relacionado à mediação da própria imagem pelas tecnologias, em específico, o telefone celular. De certo modo, o aparelho celular constitui hoje tanto a democratização quanto a banalização da máquina de fotografar; sobretudo, do gesto de fotografar.
    O celular tornou‐se, além de tudo o que ele já era, enquanto meio de comunicação e de subjetivação, um espelho. Nosso rosto é o que jamais veremos senão por meio do espelho. Mas é o rosto do outro que é nosso primeiro espelho. O conhecimento de nosso próprio rosto surge muito depois do encontro com o rosto do outro. Em nossa época, contudo, cada um compraz‐se mais com o próprio rosto do que com o alheio. O espelho, em seu sentido técnico, apenas nos dá a dimensão da imagem do que somos, não do que podemos ser. Ora, no tempo das novas tecnologias que tanto democratizam como banalizam a maior parte de nossas experiências, talvez a experiência atual com o rosto seja a de sua banalização.
    O autorretrato do tipo selfie não seria possível sem o dispositivo dos celulares e suas câmeras fotográficas capazes de inverter o foco na direção do próprio autor da foto. Celular como espelho, a prática da selfie precisa ser pensada em relação à atual experiência com a imagem de si. Ora, a autoimagem foi, desde sempre, fascinante. Daí o verdadeiro culto que temos com os espelhos. Assim é que Narciso é o personagem da autoadmiração, que em um grau de desmesura, destrói o todo da vida. Representante da vaidade como amor à máscara que todos necessariamente usamos para apresentarmo‐nos uns diante dos outros, Narciso foi frágil diante de si mesmo. Não escaparemos dessa máscara e de seus efeitos perigosos se não meditarmos no sentido do próprio fato de “aparecer” em nosso tempo. Por trás da máscara deveria haver um rosto. Mas não é esse que o espelho captura.
    Um julgamento de valor no caso da hiperexposição dos rostos seria mero moralismo se não colocasse em jogo um dos valores mais importantes de nossa época, o que Walter Benjamin chamou de “valor de exposição”. Somos vítimas e reprodutores de sua lógica. No tempo da exposição total criamos a dialética perversa entre amar a própria imagem, sermos vistos e acreditarmos que isso assegura, de algum modo, nosso existir. No tempo da existência submetida à aparência, em que falar de algo como “essência” tem algo de bizarro, talvez com a selfie fique claro que somos todos máscaras sem rosto e que este modo de aparecer seja o nosso novo modo de ser.

(Marcia Tiburi. Culto do espelho. Selfie e narcisismo contemporâneo. Revista Cult. Edição 194. Adaptad
Levando em consideração que pronomes são palavras que acompanham os substantivos, podendo substituí-los (direta ou indiretamente), retomá-los, ou se referir a eles, assinale o trecho literal que evidencia pronome demonstrativo.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: No trecho “Por trás da máscara deveria haver um rosto. Mas não é esse que o espelho captura.”, “esse” é pronome demonstrativo em emprego substantivo e anafórico; esse critério confirma a alternativa A.

Tema central: Classificação dos pronomes destacados
Análise das alternativas
A
Certa
Na alternativa A, “esse” representa “um rosto”, mencionado na frase anterior, sem acompanhar um substantivo expresso. A retomada textual esclarece o referente do demonstrativo.
B
Errada
“Si” é pronome pessoal oblíquo tônico com valor reflexivo: refere-se ao próprio Narciso em “diante de si mesmo”. A referência ao próprio sujeito não o transforma em demonstrativo.
C
Errada
“Ele” é pronome pessoal do caso reto e retoma “O autorretrato”. Embora realize retomada textual, permanece um pronome pessoal: a função anafórica não é exclusiva dos demonstrativos.
D
Errada
O termo destacado é “Nosso”, pronome possessivo de primeira pessoa do plural que acompanha “rosto”, e não um demonstrativo. A análise deve recair sobre esse destaque; o “o” da sequência “o que”, embora admita classificação demonstrativa na análise tradicional, não é o termo destacado.
Pegadinha da questão
Retomar um referente anterior não basta para classificar um pronome como demonstrativo: “ele” também faz isso, mas é pessoal. Além disso, a decisão considera os termos destacados, o que impede escolher D pela presença de “o” em “o que”.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro o termo destacado e classifique esse termo, não outro pronome presente na alternativa.
  • Separe a subclasse do pronome de sua função de retomada: tanto demonstrativos quanto pessoais podem recuperar referentes anteriores.
  • Não exija um substantivo ao lado do demonstrativo: ele pode representar sozinho um referente já mencionado, como “esse” representa “um rosto”.

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