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Q4068963 Português
Culto do espelho

    Um dos produtos mais curiosos da indústria cultural digital é a chamada selfie, autorretrato feito com celular que virou mania geral. Em lugares públicos e privados, o usuário, como quem porta um espelho, vira a câmera do telefone para o próprio rosto e, “espelho, espelho meu”, descobre por meio das redes sociais que não existe no mundo ninguém mais bonito do que “eu”.
    O autorretrato foi prática comum na história da pintura e da fotografia. Hoje em dia ele é hábito de quem tem um celular à mão. Em qualquer dos casos, a ação de autorretratar‐se diz respeito a um exercício de autoimagem no tempo histórico em que técnicas tradicionais como o óleo, a gravura, o desenho foram a base das representações de si. Hoje ele depende das novas tecnologias que, no mundo dos dispositivos, estão ao nosso alcance de forma mais simples.
    Não se pode dizer que a invenção da fotografia digital tenha intensificado apenas quantitativamente a arte de autorretratar‐ -se. Selfie não é fotografia pura e simplesmente, não é autorretrato como os outros. A selfie põe em questão uma diferença qualitativa. Ela diz respeito a um fenômeno social relacionado à mediação da própria imagem pelas tecnologias, em específico, o telefone celular. De certo modo, o aparelho celular constitui hoje tanto a democratização quanto a banalização da máquina de fotografar; sobretudo, do gesto de fotografar.
    O celular tornou‐se, além de tudo o que ele já era, enquanto meio de comunicação e de subjetivação, um espelho. Nosso rosto é o que jamais veremos senão por meio do espelho. Mas é o rosto do outro que é nosso primeiro espelho. O conhecimento de nosso próprio rosto surge muito depois do encontro com o rosto do outro. Em nossa época, contudo, cada um compraz‐se mais com o próprio rosto do que com o alheio. O espelho, em seu sentido técnico, apenas nos dá a dimensão da imagem do que somos, não do que podemos ser. Ora, no tempo das novas tecnologias que tanto democratizam como banalizam a maior parte de nossas experiências, talvez a experiência atual com o rosto seja a de sua banalização.
    O autorretrato do tipo selfie não seria possível sem o dispositivo dos celulares e suas câmeras fotográficas capazes de inverter o foco na direção do próprio autor da foto. Celular como espelho, a prática da selfie precisa ser pensada em relação à atual experiência com a imagem de si. Ora, a autoimagem foi, desde sempre, fascinante. Daí o verdadeiro culto que temos com os espelhos. Assim é que Narciso é o personagem da autoadmiração, que em um grau de desmesura, destrói o todo da vida. Representante da vaidade como amor à máscara que todos necessariamente usamos para apresentarmo‐nos uns diante dos outros, Narciso foi frágil diante de si mesmo. Não escaparemos dessa máscara e de seus efeitos perigosos se não meditarmos no sentido do próprio fato de “aparecer” em nosso tempo. Por trás da máscara deveria haver um rosto. Mas não é esse que o espelho captura.
    Um julgamento de valor no caso da hiperexposição dos rostos seria mero moralismo se não colocasse em jogo um dos valores mais importantes de nossa época, o que Walter Benjamin chamou de “valor de exposição”. Somos vítimas e reprodutores de sua lógica. No tempo da exposição total criamos a dialética perversa entre amar a própria imagem, sermos vistos e acreditarmos que isso assegura, de algum modo, nosso existir. No tempo da existência submetida à aparência, em que falar de algo como “essência” tem algo de bizarro, talvez com a selfie fique claro que somos todos máscaras sem rosto e que este modo de aparecer seja o nosso novo modo de ser.

(Marcia Tiburi. Culto do espelho. Selfie e narcisismo contemporâneo. Revista Cult. Edição 194. Adaptad
Em “De certo modo, o aparelho celular constitui hoje tanto a democratização quanto a banalização da máquina de fotografar; sobretudo, do gesto de fotografar.” (3º§), a expressão pode ser substituída, sem alteração semântica, por:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: “De certo modo, o aparelho celular constitui hoje tanto a democratização quanto a banalização da máquina de fotografar; sobretudo, do gesto de fotografar.” O critério decisivo é preservar a hierarquização expressa por “sobretudo”; esse critério orienta a escolha da alternativa D.

Tema central: Equivalência semântica contextual
Análise das alternativas
A
Errada
“Conquanto” expressa concessão, introduzindo uma circunstância contrária à expectativa. O trecho não estabelece essa relação: destaca o gesto de fotografar como aspecto principal, sem apresentá-lo como ressalva à afirmação sobre a máquina.
B
Errada
“Além do mais” introduziria um acréscimo, mas retiraria a indicação de que o gesto de fotografar tem maior destaque. Acrescentar um aspecto não equivale a apresentá-lo como prioritário.
C
Errada
“Gradualmente” indicaria um processo desenvolvido por graus ou etapas. A palavra original não informa como o processo progride; indica qual aspecto recebe maior importância.
D
Certa
A alternativa D, “Principalmente”, mantém o gesto de fotografar como aspecto de maior relevo na democratização e na banalização promovidas pelo celular. Essa prioridade não exclui a máquina de fotografar do alcance da afirmação.
Pegadinha da questão
Confundir o destaque de importância de “sobretudo” com o simples acréscimo de “além do mais”. O gesto de fotografar é priorizado, não apenas acrescentado nem apresentado como único aspecto atingido.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique a relação de sentido da expressão no trecho: destaque, concessão, acréscimo ou progressão gradual.
  • Na substituição, preserve a hierarquia entre os aspectos mencionados, e não apenas a possibilidade de introduzir outra informação.
  • Diferencie prioridade de exclusividade: destacar um aspecto não significa excluir os demais.

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