O texto discute a interpretação funcional e evolutiva das vo...

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O miado das onças-pintadas: registros inéditos mostram como mães se comunicam com filhotes sem atrair machos

O som registrado não correspondia ao que se esperava — e foi exatamente essa diferença que despertou o interesse dos pesquisadores. Câmeras instaladas no Parque Nacional do Iguaçu flagraram onças-pintadas emitindo vocalizações curtas, agudas e repetidas, muito semelhantes a miados.

O achado é inédito. Até então, predominava na literatura científica a ideia de que esses animais se comunicavam apenas por meio do esturro, vocalização grave e característica da espécie. De acordo com a bióloga Vânia Foster, do projeto Onças do Iguaçu, que monitora onças-pintadas desde a década de 1990, a bibliografia sempre indicou que as espécies do gênero Panthera não teriam capacidade de miar, em razão da conformação da traqueia e da laringe, o que restringiria sua comunicação sonora ao esturro.

O avanço tecnológico, contudo, trouxe novos dados. O uso de câmeras com monitoramento contínuo e microfones permitiu aos pesquisadores constatar que o esturro não é a única forma de comunicação das onças. Foster relata que o primeiro registro ocorreu em 2020, quando os equipamentos captaram uma fêmea emitindo miados enquanto chamava seu filhote. Posteriormente, novos áudios da mesma fêmea foram gravados em situações em que ela parecia não saber onde o filhote estava. Já em 2023, os papéis se inverteram: foi o filhote que passou a miar para chamar a mãe.

A constatação causou estranhamento na equipe, pois esse tipo de vocalização não estava descrito na bibliografia, tampouco havia informações sobre sua variação ou sobre a possibilidade de um mesmo indivíduo emitir diferentes tipos de miado. Diante disso, os pesquisadores buscaram apoio especializado para descrever e compreender melhor esses sons.

O grupo passou a trabalhar com a pesquisadora Marina Duarte, da Universidade de Salford, no Reino Unido, especialista em bioacústica — área que estuda a comunicação sonora dos animais. Com o auxílio de ferramentas analíticas, a equipe conseguiu converter os sons gravados em dados numéricos, o que permitiu compará-los com outras vocalizações conhecidas das onças.

A análise revelou um dado surpreendente: havia pelo menos três tipos distintos de miados. Segundo Duarte, além de comprovar de forma matemática e estatística que essas vocalizações diferem daquelas já descritas na literatura, o estudo demonstrou que o repertório vocal relacionado ao miado é mais complexo do que se supunha.

Ao longo da pesquisa, os miados foram observados exclusivamente em contextos de comunicação entre mães e filhotes. Foster explica que há uma razão funcional para isso. O esturro é uma vocalização típica de onças adultas, tanto machos quanto fêmeas, enquanto os filhotes não são capazes de produzi-lo, pois ainda não possuem as cordas vocais plenamente desenvolvidas.

Para evitar chamar a atenção de machos adultos, as fêmeas utilizam os miados como forma de comunicação com os filhotes, em uma espécie de comunicação maternal. Caso a fêmea esturrasse na presença dos filhotes, poderia atrair outros machos para a região. Como esses animais apresentam comportamento de infanticídio, a aproximação representaria um risco real de morte para os filhotes.

Duarte acrescenta que essa ameaça pode ter funcionado como uma pressão seletiva, favorecendo a evolução desse tipo de comunicação específica entre mãe e filhote. Na bioacústica, esse processo é chamado de modulação: mesmo sem possuir um aparato vocal originalmente adaptado ao miado, a fêmea consegue ajustar a vocalização de modo a torná-la adequada à comunicação com os filhotes.

A pesquisadora observa que esse mecanismo se assemelha ao que ocorre entre humanos, quando adultos modulam a voz ao falar com bebês, utilizando entonação diferenciada para facilitar a interação. Essa analogia, segundo ela, torna ainda mais expressivo o significado dos registros e reforça o caráter singular da descoberta.


https://www.bbc.com/portuguese/articles/cre208z8l80o.adaptado.
O texto discute a interpretação funcional e evolutiva das vocalizações observadas, relacionando comportamento, risco ambiental e adaptação comunicativa.
À luz desse enfoque, é CORRETO afirmar que o texto explica o uso dos miados pelas fêmeas principalmente como resultado de:
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: A resposta correta decorre da centralidade textual da explicação explicitamente afirmada: o trecho “Para evitar chamar a atenção de machos adultos, as fêmeas utilizam os miados como forma de comunicação com os filhotes, em uma espécie de comunicação maternal. Caso a fêmea esturrasse na presença dos filhotes, poderia atrair outros machos para a região. Como esses animais apresentam comportamento de infanticídio, a aproximação representaria um risco real de morte para os filhotes.” define o núcleo interpretativo e afasta as alternativas que deslocam o foco para hipótese secundária ou informação não sustentada.

Tema central: função dos miados
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque sintetiza o eixo principal do texto sem deslocar o foco. O texto afirma diretamente que os miados são usados na comunicação entre mãe e filhote para evitar atrair machos adultos, cuja aproximação representa risco de infanticídio. Portanto, a ideia central é a de adaptação comunicativa funcional associada à proteção dos filhotes em um contexto ambiental específico.
B
Errada
A alternativa erra em dois pontos objetivos. Primeiro, contraria o texto ao dizer que a resposta é “ocasional” e “desvinculada de fatores evolutivos”, quando o texto admite, como apoio interpretativo, a possibilidade de pressão seletiva. Segundo, inventa que haveria “limitação temporária das fêmeas em produzir esturros”; essa informação não aparece no texto. A imaturidade vocal mencionada refere-se aos filhotes, não às fêmeas.
C
Errada
A alternativa usa elementos reais do texto, mas troca o principal pelo complementar. O texto traz a dimensão evolutiva na formulação modalizada “pode ter funcionado como uma pressão seletiva”, apresentada por Duarte como acréscimo interpretativo. Já a explicação mais direta e central está na função protetiva dos miados para evitar atrair machos adultos. Por isso, C erra pela hierarquia das informações: transforma hipótese de apoio em núcleo da resposta.
D
Errada
A alternativa distorce a função da analogia com humanos. No texto, essa comparação aparece apenas ao final, como recurso ilustrativo para tornar mais expressivo o significado dos registros. Ela não substitui a explicação baseada em bioacústica, risco ambiental e possível pressão seletiva. O erro, portanto, é discursivo e semântico: converter comparação acessória em fundamento principal.
Pegadinha da questão
A confusão real está entre A e C: a C parece mais forte por repetir vocabulário técnico do texto, mas o comando pede a explicação principal, e o texto a enuncia diretamente como função comunicativa de proteção dos filhotes; a dimensão evolutiva aparece como complemento modalizado.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando pede a explicação principal, identifique o trecho em que o texto afirma diretamente a causa ou finalidade, sem trocar esse núcleo por hipótese secundária.
  • Se duas alternativas forem próximas, observe a hierarquia interna do texto: informação central explicitada vale mais que desenvolvimento técnico complementar.
  • Desconfie de alternativas que misturam dado verdadeiro do texto com acréscimo não sustentado, como ocorreu com a suposta limitação das fêmeas em esturrar.

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