O texto articula o relato inicial sobre o idoso milionário c...

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Q3795889 Português

Para responder à questão, leia o texto abaixo. 



Ricos demais



    Ela tinha uma expressão preocupada, mostrando-se distante. Depois de quase meia hora e na certeza de que o assunto ficaria entre nós, confessou-me sentir-se bastante preocupada com o marido. Pouco dormia e apresentava crises constantes de ansiedade. Passava o dia somando valores e consultando seu advogado. Pensou estar com problemas financeiros, tentando se reorganizar, pois sua mente era um caos. Para minha surpresa, era exatamente o contrário. Ele tinha excesso de dinheiro, veja só. O problema é que passava as horas livres administrando quase uma centena de imóveis de sua propriedade, além de aplicações na bolsa. Esse era o seu dilema: via ao redor pessoas tentando enganá-lo e não descuidava um minuto do patrimônio. Além disso, buscava outras aquisições, e escolher as melhores consumia parte significativa do tempo. É, enfim, alguém que só conseguiu acumular escrituras e dinheiro. As relações familiares e as amizades nunca foram prioritárias. Agora, aos 82 anos de idade, encontra-se perdido.



    A escritora Marina Colassanti disse, em uma entrevista, ser importante ponderar acerca de um dos maiores mitos sobre a velhice: acreditar que venha sempre acompanhada da sabedoria. Na maioria das vezes, só representa o desgaste do corpo e a proximidade da morte. Se nos descuidarmos, atravessaremos a existência como um mero organismo biológico, nada mais. A natureza cria e descarta, eis tudo. Refletindo sobre o relato acima, dei-me conta do quanto podemos nos desviar dos grandes propósitos. A cobiça se alimenta de si mesma. E, pior, quem a nutre ao longo dos anos, mal percebe as coisas boas acontecendo no entorno. Atenção: não estou fazendo a apologia da pobreza. Ter dinheiro é muito bom. Escasso, nos leva a uma situação de carência, traduzida em dificuldades de toda ordem. Eu nem me importaria de, por exemplo, ter dúvidas de como e onde gastá-lo. O problema surge quando nos desviamos do foco principal, que é o seu usufruto pleno. Somar é bom, porém, precisa ter o mesmo valor de dividir. Caso contrário, nos candidataremos a repetir o modelo acima. 



    Se você já leu o livro Coisa de Rico, do escritor Michel Alcoforado, sabe a que me refiro. O excesso nos leva a ignorar a noção de realidade, extrapolando o bom senso e nos tornando vulneráveis às pequenas perdas. Como somos criaturas desejantes, a privação também pode causar sérios problemas. Sem contar, claro, que parece melhor resolver os dramas de qualquer ordem ancorados no conforto e na ausência de preocupações financeiras. Soaria bem simpático dizer o contrário, mas os exemplos o desmentem. Enfim, surpreendo-me recordando este homem afogado em números e tão distraído a ponto de não perceber que em breve nossos pertencimentos serão entregues a outros. 



    O pobre senhor tão aflito deixou de aprender a lição proposta pelo filósofo Michel Onfray: “Sair por aí, desenfreadamente, usando a vida até furar a sola.” 


Autor: Gilmar Marcílio - GZH (adaptado). 


O texto articula o relato inicial sobre o idoso milionário com reflexões filosóficas e literárias, produzindo uma crítica ao modo como certas formas de acúmulo podem desviar o indivíduo dos propósitos essenciais da vida. Esse entrelaçamento discursivo permite ao autor sustentar uma visão mais ampla sobre o sentido da existência e o risco de uma vida reduzida à administração de posses. Considerando esse percurso reflexivo, assinale a alternativa que apresenta interpretação coerente com a perspectiva construída no texto. 


Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O texto-base explicita que "O problema surge quando nos desviamos do foco principal, que é o seu usufruto pleno. Somar é bom, porém, precisa ter o mesmo valor de dividir. Caso contrário, nos candidataremos a repetir o modelo acima." Assim, a interpretação correta é a que reconhece a crítica ao acúmulo convertido em finalidade da vida, e não à riqueza em si.

Tema central: acúmulo e sentido
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque traduz a crítica central do texto: quando a riqueza transforma o indivíduo em zelador permanente do patrimônio, ela afasta o foco do usufruto pleno da vida e enfraquece as relações e os sentidos compartilhados.
B
Errada
Está errada por extrapolação indevida. A alternativa afirma que o acúmulo material é 'sempre' acompanhado de deterioração emocional e estabelece relação direta entre riqueza e sofrimento psíquico independentemente das escolhas individuais. O texto não autoriza essa generalização absoluta. Ao contrário, ressalva que ter dinheiro é bom e limita a crítica a um modo específico de relação com a riqueza: o acúmulo obsessivo que substitui o usufruto, a partilha e os vínculos humanos.
C
Errada
Está errada por contradição frontal com o texto-base. O autor afirma expressamente que não faz apologia da pobreza e reconhece que a escassez conduz a carências e dificuldades de toda ordem. Portanto, não se pode extrair do texto que a pobreza proporcione melhor compreensão da realidade ou seja condição mais favorável ao equilíbrio interior.
D
Errada
Está errada por inverter a tese textual. A referência à velhice, apoiada na menção a Marina Colassanti, serve justamente para rejeitar o mito de que a velhice venha sempre acompanhada de sabedoria. O caso do idoso milionário não confirma maturidade sábia; ele evidencia perda de sentido existencial, fechamento em torno do patrimônio e incapacidade de viver o essencial.
Pegadinha da questão
A banca explorou a confusão entre criticar o acúmulo obsessivo e condenar a riqueza em si, além de induzir leituras indevidas de elogio da pobreza ou de generalização universal a partir de um caso específico.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro a tese central do texto e escolha a alternativa que a reproduz sem ampliar nem reduzir seu alcance.
  • Desconfie de palavras absolutas como 'sempre' e 'independentemente' quando o texto trabalha com um caso exemplar e uma crítica contextualizada.
  • Se o autor faz ressalva expressa, como negar a apologia da pobreza, elimine qualquer alternativa que contrarie diretamente essa afirmação.
  • Verifique a função do exemplo narrado: aqui, o idoso não prova uma regra universal, apenas ilustra a tese sobre vida reduzida à administração de posses.

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