No período "Guardo a impressão de que perco mais tempo prep...

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Q3909157 Português

O texto seguinte servirá de base para responder à questão.



Auxiliar do pequeno arroz


Amo faxinar. Amo varrer. Amo passar aspirador de pó, carregando nos braços as curvas dos canos como uma jiboia de estimação.


Quando Beatriz decidiu comprar um robozinho aspirador, eu me considerei extinto, superado, posto de lado. Minha primeira reação resumiu-se a um dolorido sentimento de rejeição. Não poderia mais me vangloriar da limpeza, do piso lustrado, dos cantos asseados.


Era como o adeus a um reconhecimento familiar. A despedida de uma função na minha vida. De uma utilidade. De um significado doméstico. Das recompensas.


Atingiu em cheio a minha vaidade. Tentei dissuadir minha esposa, mas ela cedeu aos encantos da tecnologia. Disse que o aparelho iria facilitar nossa rotina. Seu discurso centrava-se no atenuante de que completaria meu trabalho, mantendo meu valor.


Recebemos um disco voador do chão, que jamais decolava, que falava inglês e ruminava a sujeira. O produto vinha da China. Seu nome — Xiaomi — corresponde a "pequeno arroz" (Xiao = pequeno, Mi = arroz).


Chegava para mexer com o feijão e o arroz dos meus préstimos.


 A princípio, prometia uma varredura sem igual. Prospectou o espaço do lar, incorporou a planta dos aposentos, esnobou vantagens em termos de profissionalismo e método. Ele me humilhou no brainstorm, no business plan, no dark horse, no deadline, no follow-up, no know-how, no target, no mindset — e pensar que eu me achava super organizado arredando os móveis. Era possível programá-lo remotamente via celular. Mandaria mensagens ao concluir o serviço. 


A teoria, entretanto, não acompanhou a prática.


Ele desapareceu no meio de suas operações. Ou enforcado nos fios da televisão, ou atolado no box do banheiro, ou prensado debaixo da cama, ou paralisado por algum chinelo, ou engasgado com um capacho.


Brincava perigosamente de esconde-esconde conosco. Empreendíamos diariamente uma expedição para localizar seu misterioso paradeiro. Adquirido para diminuir o estresse, só causava preocupação. Parecia um bebê engatinhando e botando na boca tudo o que encontrasse pelo caminho. Já temíamos por sua fragilidade.


Provocou um rebuliço na nossa logística. Porque, antes de colocá-lo em movimento, acabávamos obrigados a tirar qualquer obstáculo para sua passagem. Fazíamos uma vistoria do que ele seria capaz de engolir. Deu saudade da época muito mais simples em que levantávamos os pés para alguém limpar.


Foi assim que eu me tornei auxiliar do Xiaomi. Ele depende de mim para não morrer. Guardo a impressão de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa.


Mas ainda permaneço, de um jeito ou de outro, aos trancos e barrancos, insubstituível.



Fabrício Carpinejar


CARPINEJAR, Fabrício. Auxiliar do pequeno arroz. O Tempo, Belo Horizonte, 26 dez. 2025. Disponível em: https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/2025/12/26/auxili ar-do-pequeno-arroz . Acesso em: 22 fev. 2026.

No período "Guardo a impressão de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa.", a organização sintática articula diferentes processos de subordinação e uma estrutura comparativa. Considerando os mecanismos formais de coordenação e subordinação presentes no trecho, assinale a alternativa que descreve corretamente sua estrutura, sem simplificações indevidas.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: No trecho “Guardo a impressão de que perco mais tempo preparando o terreno para ele do que eu gastaria realmente arrumando a casa.”, a expressão “de que” introduz oração subordinada substantiva completiva nominal, pois complementa o nome “impressão”; além disso, “do que eu gastaria” marca a correlação comparativa com elipse verbal. Essa combinação torna correta a alternativa C.

Tema central: classificação das orações
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra em dois pontos objetivos. Primeiro, “de que perco mais tempo...” não é subordinada objetiva direta, porque não completa o verbo “Guardo”; ela completa o nome “impressão”. Segundo, “mais ... do que” não introduz “duas coordenadas alternativas”: essa sequência forma correlação comparativa, não coordenação alternativa.
B
Errada
A classificação como subordinada adjetiva restritiva é incompatível com o trecho, porque não há pronome relativo retomando antecedente com valor de caracterização. A oração “de que perco mais tempo...” não qualifica um nome; ela funciona como complemento do substantivo abstrato “impressão”. Também não há, na estrutura, oração coordenada explicativa reduzida.
C
Certa
A alternativa C acerta porque reconhece os dois pontos estruturais do período sem simplificação: há uma oração principal, cujo núcleo verbal é “Guardo”, e o segmento “a impressão” funciona como objeto direto; dentro desse objeto, a expressão “de que” introduz uma oração que completa o nome “impressão”, não o verbo, o que caracteriza subordinada substantiva completiva nominal. Além disso, no interior dessa subordinada, a sequência “mais tempo ... do que eu gastaria realmente arrumando a casa” constitui uma comparação formalmente marcada, com segundo termo comparativo e traço de elipse verbal próprio desse tipo de construção.
D
Errada
O período não apresenta duas orações independentes. Há dependência sintática explícita entre “impressão” e a oração introduzida por “de que”, além da dependência da comparativa ao esquema “mais ... do que”. Também não existe coordenação adversativa implícita, porque a comparação não decorre apenas de valor semântico contextual: ela está formalmente marcada no enunciado.
Pegadinha da questão
A confusão real era tomar “de que perco mais tempo...” como complemento do verbo “Guardo”, classificando-a como objetiva direta, e ignorar que ela completa o nome “impressão”; a outra armadilha era ler “mais ... do que” como mera conexão solta, sem reconhecer a oração comparativa.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a oração introduzida por “de que” completa um verbo ou um nome; se completar nome abstrato, o caminho é completiva nominal, não objetiva direta.
  • Em estruturas com “mais ... do que”, não trate os segmentos como coordenação: primeiro identifique a correlação comparativa.
  • Só classifique uma subordinada como adjetiva se houver retomada de antecedente com valor de caracterização, normalmente por pronome relativo.

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