A generosidade das elites ou a gratidão dos
humildes.
Um homem de ombreiras bordada a ouro foi
condenado a 100 chibatadas em público, por não
pagar imposto de renda. No dia anterior à sentença
encheu uma bolsa com 10.000 piastras e,
encontrando na rua um miserável, pediu que, em
troca das 10.000 piastras, o miserável recebesse as
chibatadas em seu lugar, como a lei permitia.
O pobre-diabo achou extremamente boa a
proposta (10.000 piastras!) e, no dia seguinte, estava lá, de cócoras, no centro da maior praça da cidade,
para receber as chibatadas. Mas, logo nas primeiras
10, começou a chorar - viu que não resistia - e, em
altos e lancinantes brados, pediu clemência a Alá. Alá
surgiu como um auxiliar do chibatador, que disse ao
ouvido do chibatado; "Me dás todo o dinheiro que tens
e o chibatador apenas fingirá as outras 90
chibatadas". Mas que gritasse ainda mais para que o
povo em volta não percebesse a barganha.
O miserável concordou, a chibatação e os gritos
continuaram até se completarem as 100 chibatadas e
o povo saiu contente, porque agora, como todos
tinham visto, também os poderosos eram castigados,
embora por interpostas pessoas. No dia seguinte o
miserável estava outra vez na sua esquina quando viu
passar o potentado cujo lugar tinha tomado. Num
ímpeto se atirou em frente ao homem e, ajoelhado,
murmurou com os olhos em lágrimas: "Agradecido,
mil vezes agradecido, meu louvado senhor; que o céu
o faça cada dia mais poderoso. Se o senhor não
tivesse me financiado com tanta generosidade, eu
agora estaria morto com aquelas 100 chibatadas."
Millôr Fernandes
Em relação à tipologia textual, o texto é:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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