Considerando os efeitos de sentido produzidos pelos artigos ...
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Ano: 2026
Banca:
IDECAN
Órgão:
Câmara de Trindade - GO
Provas:
IDECAN - 2026 - Câmara de Trindade - GO - Técnico Legislativo - Agente Legislativo
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IDECAN - 2026 - Câmara de Trindade - GO - Técnico Legislativo - Agente de Segurança Institucional |
Q4432025
Português
Texto associado
O Ex-Mágico da Taberna Minhota
Na verdade, eu não estava preparado para o sofrimento.
Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a
avalanche do tédio e da amargura, pois, desde a meninice,
acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e
gradativo de dissabores.
Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais,
infância ou juventude.
Um dia, dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no
espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e
tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante.
Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que
não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo?
Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.
Sem meditar na resposta, ou fazer outras perguntas,
ofereceu-me emprego e passei daquele momento em diante a
divertir a freguesia da casa com os meus passes mágicos.
O homem, entretanto, não gostou da minha prática de
oferecer aos espectadores almoços gratuitos, que eu extraía
misteriosamente de dentro do paletó. Considerando não ser dos
melhores negócios aumentar o número de fregueses sem o
consequente acréscimo nos lucros, apresentou-me ao empresário
do Circo-Parque Andaluz que, posto a par das minhas habilidades,
propôs contratar-me. Antes, porém, aconselhou-o que se prevenisse
contra os meus truques, pois ninguém estranharia se me ocorresse
a ideia de distribuir ingressos graciosos para os espetáculos.
Contrariando as previsões pessimistas do primeiro patrão, o
meu comportamento foi exemplar. As minhas apresentações em
público não só empolgaram multidões, como deram fabulosos lucros
aos donos da companhia.
Com o crescimento da popularidade, a minha vida tornou-se
insuportável.
Às vezes, sentado em algum café, a olhar cismativamente o
povo desfilando na calçada, arrancava do bolso pombos, gaivotas,
maritacas. As pessoas que se encontravam nas imediações,
julgando intencional o meu gesto, rompiam em estridentes
gargalhadas. Eu olhava melancólico para o chão e resmungava
contra o mundo e os pássaros.
Nada fazia. Olhava para os lados e implorava com os olhos
por um socorro que não poderia vir de parte alguma.
Situação cruciante.
À noite, em meio a um sono tranquilo, costumava acordar
sobressaltado: era um pássaro ruidoso que batera as asas ao sair
do meu ouvido.
Numa dessas vezes, irritado, disposto a nunca mais fazer
mágicas, mutilei as mãos. Não adiantou. Ao primeiro movimento que
fiz, elas reapareceram novas e perfeitas nas pontas dos tocos de
braço. Acontecimento de desesperar qualquer pessoa,
principalmente um mágico enfastiado do ofício.
Urgia encontrar solução para o meu desespero. Pensando
bem, concluí que somente a morte poria termo ao meu desconsolo
Firme no propósito, tirei dos bolsos uma dúzia de leões e,
cruzando os braços, aguardei o momento em que seria devorado
por eles. Nenhum mal me fizeram. Rodearam-me, farejaram minhas
roupas, olharam a paisagem, e se foram.
Uma frase que escutara por acaso, na rua, trouxe-me nova
esperança de romper em definitivo com a vida. Ouvira de um
homem triste que ser funcionário público era morrer aos poucos.
Não me encontrava em condições de determinar qual a
forma de desaparecer que melhor me convinha. Por isso,
empreguei-me numa Secretaria de Estado.
1930, ano amargo. Foi mais longo que os posteriores à
primeira manifestação que tive da minha existência, ante o espelho
da Taberna Minhota.
Não morri, conforme esperava. Maiores foram as minhas
aflições, maior o meu desconsolo.
Quando era mágico; pouco lidava com os homens — o palco
me distanciava deles. Agora, obrigado a constante contato com
meus semelhantes, necessitava compreendê-los, disfarçar a náusea
que me causavam.
O pior é que, sendo diminuto meu serviço, via-me na
contingência de permanecer à toa horas a fio. E o ócio levou-me à
revolta contra a falta de um passado. Por que somente eu, entre
todos os que viviam sob os meus olhos, não tinha alguma coisa para
recordar? Os meus dias flutuavam confusos, mesclados com pobres
recordações, pequeno saldo de três anos de vida.
O amor que me veio por uma funcionária, vizinha de mesa
de trabalho, distraiu-me um pouco das minhas inquietações.
Distração momentânea. Cedo retornou o desassossego,
debatia-me em incertezas. Como me declarar à minha colega? Se
nunca fizera uma declaração de amor e não tivera sequer uma
experiência sentimental!
1931 entrou triste, com ameaças de demissões coletivas na
Secretaria e a recusa da datilógrafa em me aceitar. Ante o risco de
ser demitido, procurei acautelar meus interesses. (Não me importava
o emprego. Somente temia ficar longe da mulher que me rejeitara, mas cuja presença me era agora indispensável.)
Fui ao chefe da seção e lhe declarei que não podia ser
dispensado, pois tendo dez anos de casa, adquirira estabilidade no
cargo.
Fitou-me por algum tempo em silêncio. Depois, fechando a
cara, disse que estava atônito com meu cinismo. Jamais poderia
esperar de alguém, com um ano de trabalho, ter a ousadia de
afirmar que tinha dez.
Para lhe provar não ser leviana a minha atitude, procurei nos
bolsos os documentos que comprovavam a lisura do meu
procedimento. Estupefato, deles retirei apenas um papel amarrotado
— fragmento de um poema inspirado nos seios da datilógrafa.
Revolvi, ansioso, todos os bolsos e nada encontrei.
Tive que confessar minha derrota. Confiara demais na
faculdade de fazer mágicas e ela fora anulada pela burocracia.
Hoje, sem os antigos e miraculosos dons de mago, não
consigo abandonar a pior das ocupações humanas. Falta-me o amor
da companheira de trabalho, a presença de amigos, o que me obriga
a andar por lugares solitários. Sou visto muitas vezes procurando
retirar com os dedos, do interior da roupa, qualquer coisa que
ninguém enxerga, por mais que atente a vista.
Pensam que estou louco, principalmente quando atiro ao ar
essas pequeninas coisas.
Tenho a impressão de que é uma andorinha a se
desvencilhar das minhas mãos. Suspiro alto e fundo.
Não me conforta a ilusão. Serve somente para aumentar o
arrependimento de não ter criado todo um mundo mágico.
Por instantes, imagino como seria maravilhoso arrancar do
corpo lenços vermelhos, azuis, brancos, verdes. Encher a noite com
fogos de artifício. Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus
lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um
extremo a outro. E os aplausos dos homens de cabelos brancos,
das meigas criancinhas.
RUBIÃO, Murilo. Obra completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Considerando os efeitos de sentido produzidos pelos artigos
destacados no trecho seguinte, assinale a alternativa correta.
“Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro.”
“Erguer o rosto para o céu e deixar que pelos meus lábios saísse o arco-íris. Um arco-íris que cobrisse a terra de um extremo a outro.”