"Nós nos acostumamos a ver com naturalidade os que não preci...
O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 1 a 8.
Os fora-fila
Todos os dias, milhões de brasileiros perdem horas preciosas em filas de ônibus, e reclamam corretamente dos oportunistas fura-fila. Poucos percebem os fora-fila: os que usam carros privados e os que não têm dinheiro nem vale-transporte. Há séculos, muitos brasileiros fazem fila para obter o que precisam, enquanto outros não têm direito nem mesmo de esperar em fila, por falta absoluta de dinheiro; enquanto outros não precisam se submeter a filas porque têm muito dinheiro.
Por causa das ineficiências econômicas, a palavra "fila" caracteriza o dia a dia dos brasileiros, mas por causa da injustiça social não se percebe os que estão fora das filas, de um lado e outro da escala de rendas. Alguns porque não precisam se submeter a elas, graças a privilégios e dinheiro, outros porque não têm o direito de entrar nelas. No meio, imprensados, os da fila, ignorando os extremos. Nós nos acostumamos a ver com naturalidade os que não precisam e ainda mais os que não conseguem entrar nas filas, por tratá-los como invisíveis.
No setor da saúde, nos indignamos com os que tentam furar a fila para tomar vacina, mas não percebemos a injustiça quando furam a fila ao usar dinheiro para o atendimento médico de um pediatra para o filho, de um dentista e de profissionais de todas as outras especialidades que não estão disponíveis no SUS, com a urgência necessária. Apesar do nome, o sistema nacional de saúde não é único: de um lado, tem o SUS com suas filas; e, do outro, o SEP - Sistema Exclusivo de Saúde - sem fila para os que podem pagar.
Todos condenamos os fura-fila do SUS para tomar vacina, mas todos aceitamos que se fure a fila nas demais especialidades médicas, inclusive cirurgias, por meio do uso do dinheiro. Em alguns casos, há reclamação quando a fila se organiza por um pequeno papel numerado, mas não se protesta quando, perto dali, o atendimento é imediato, porque no lugar do papel com o número da fila usa-se papel moeda. Aceita-se furar fila graças ao dinheiro. Nem se considera como fura fila. São os fora-fila, aceitos por convenção de que o dinheiro pode comprar saúde.
Na moradia, alguns entram na fila do programa Minha Casa Minha Vida; outros não precisam, compram diretamente a casa que desejam e podem; outros também não entram na fila, porque não têm as mínimas condições de financiamento.
O mesmo vale para a educação. Em função do Coronavírus, o Brasil descobriu que algumas boas escolas, em geral pagas e caras, com ensino remoto, computadores e internet em casa, permitem que alguns cheguem ao ENEM com mais possibilidade de aprovação do que outros. Apesar de que a aprovação é conquistada pelo mérito do concorrente, os aprovados se beneficiaram da exclusão de muitos concorrentes ao longo da educação de base.
A desigualdade na qualidade da escola desiguala o preparo entre os candidatos, como uma forma de empurrar alguns para fora e outros para a frente da fila. De certa forma, alguns furaram a fila para ingresso na universidade, por pagarem uma boa escola ainda na educação de base. E não há reclamação porque os fora da fila são invisíveis, porque não concluíram o Ensino Médio, ou concluíram um Ensino Médio sem qualidade que não lhes deu condição sequer de sonhar fazer o ENEM.
Tanto quanto os que não podem pagar o transporte público não entram na fila do ônibus, os analfabetos (12 milhões de brasileiros) não entram na fila do ENEM para ingresso na universidade. Foram excluídos da formação, por falta de oportunidade para desenvolver o talento no momento oportuno da educação de base, e, por isso, ficam impedidos de disputar, por mérito, uma vaga na universidade.
Ninguém fura fila para chegar à seleção brasileira de futebol, porque todos tiveram a mesma chance. A seleção é pelo mérito, graças ao fato de que a bola é redonda para todos, independentemente da renda.
Temos a preocupação de assegurar os mesmos direitos para obter vacina, não o mesmo direito para a qualidade e a urgência no atendimento de saúde e de educação, independentemente da renda e do endereço da pessoa. Nem ao menos consideramos que há injustiça em furar fila usando dinheiro para ter acesso à educação e à saúde de qualidade. É como se fosse normal furar fila por se ter muito dinheiro e normal ficar fora da fila por falta total de dinheiro. No meio, ficam os que, por pouco dinheiro, ficam na fila e se indignam com os que tentam desrespeitar a ordem, sem atentar para os fora da fila nos carros, ou os fora da fila caminhando. Os primeiros aceitamos pelas leis do mercado, os outros tornamos invisíveis.
"Nós nos acostumamos a ver com naturalidade os que não precisam e ainda mais os que não conseguem entrar nas filas, por tratá-los como invisíveis." O termo sublinhado refere-se a algo anteriormente mencionado no texto. Nesse caso, o pronome em destaque estabelece uma relação de referência a:
Gabarito comentado
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Tema central: A questão trata de coesão referencial e interpretação do uso de pronomes pessoais oblíquos (no caso, o pronome “los”) dentro do texto.
Regra essencial: Segundo a norma-padrão, a coesão textual se estabelece quando elementos do texto (pronomes) retomam termos já citados, criando claridade e continuidade (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa). O pronome “los”, forma oblíqua átona da 3ª pessoa do plural, refere-se a um termo antecedente.
Justificativa da alternativa correta (A):
No trecho destacado, o termo “los” aponta para "os que não precisam [entrar nas filas]" e "os que não conseguem entrar nas filas", elementos explicitados no período anterior. Ambos são exemplos de pessoas excluídas socialmente, resultado de diferentes condições socioeconômicas: os muito ricos, por terem privilégios, e os muito pobres, por falta absoluta de recursos.
Assim, a alternativa A é a resposta correta ao sintetizar: pessoas excluídas socialmente a ponto de não terem razão para entrarem em filas.
Análise das alternativas incorretas:
B) “Cidadãos que repudiam fazer parte de filas, já que não conseguem se ver em tal situação.”
Erro: O texto não menciona repúdio ou aversão às filas, mas sim barreiras de acesso.
C) “Indivíduos que não precisam entrar em filas porque possuem tudo o que desejam.”
Erro: Ainda que valide um grupo (os privilegiados), ignora os totalmente excluídos por falta de dinheiro — não contempla a totalidade do referente do pronome.
D) “Grupos sociais que possuem ojeriza a filas em função de seu histórico socioeconômico.”
Erro: “Ojeriza” (aversão) não é mencionada; o motivo da exclusão é a desigualdade, não sentimento de antipatia.
Estratégia para concursos: Identifique sempre o termo antecedente dos pronomes numa frase. Analise os períodos anteriores, observe possíveis variações de sentido, e atente-se a pegadinhas que limitam o grupo referente apenas a uma das partes (ricos ou pobres).
Como ensina Celso Cunha, a clareza referencial é base para a boa interpretação.
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