Considerando o conteúdo do texto e as possibilidades de infe...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q4109933 Português
    [...] Como comentei na introdução, é comum que alguns autores, embora neguem o uso do “eu”, permitam, entretanto, o uso do “nós”, isto é, o emprego gramatical da primeira pessoa do plural. Devo dizer que acho a opção ainda mais estranha e curiosa do que a proibição anterior.
    Penso que tais autores, se sentindo sufocados pela impessoalidade da terceira pessoa gramatical, porém, sem querer ceder à pessoalidade da primeira pessoa do singular, acabem tentando encontrar um meio-termo no “nós”, o que, a meu ver, é mero paliativo. É que, à exceção dos trabalhos elaborados em coautoria, soa muito estranho ler um autor se referindo a si como “nós”. Soa como uma esquizofrenia.
    Para tentar justificar esse paliativo, já vi seus defensores argumentando que o uso da primeira pessoa do plural se justifica uma vez que o autor se apoia em diversas pessoas e em suas obras para poder desenvolver um trabalho científico. Assim, tentam fazer crer que o uso do “nós” é uma espécie de reconhecimento à colaboração dos demais autores que serviram de fonte às ideias do autor da pesquisa.
     Ora, com todo respeito, trata-se de uma falácia. O argumento da suposta humildade do pesquisador revela-se, na verdade, uma presunção temerosa, que, penso, deve ser evitada. Nada lhe garante que os autores que lhe serviram de fonte de pesquisa chegariam às mesmas conclusões que as suas, ou que foram corretamente interpretados em suas ideias. Em verdade, não cabe ao pesquisador declarar a vontade de suas fontes, apenas interpretá-las com sua própria subjetividade que lhe é peculiar.
    Além de gerar um ruído na comunicação, entendo que o uso da primeira pessoa do plural por um indivíduo que elabora sozinho um texto acadêmico representa uma afronta à lógica, já que nada justifica se referir a si como “nós”, quando se está completamente sozinho no ato de escrever. Sendo o caso de ser uma pesquisa que teve ajudantes ou colaboradores, uma forma de valorizar sua participação é torná-los coautores ou mencioná-los diretamente no trabalho. [...]


CERSOSIMO, Samuel Oliveira. O “eu” no trabalho acadêmico: considerações sobre a proibição ao uso da primeira pessoa do singular nos textos científicos. Disponível em: https://www.academia.edu/. 
Considerando o conteúdo do texto e as possibilidades de inferências que ele mobiliza, assinale a alternativa correta.
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: B

Fundamento decisivo: “Penso que tais autores, se sentindo sufocados pela impessoalidade da terceira pessoa gramatical, porém, sem querer ceder à pessoalidade da primeira pessoa do singular, acabem tentando encontrar um meio-termo no “nós”, o que, a meu ver, é mero paliativo.” O critério decisivo é verificar se a alternativa preserva a avaliação expressa pelo autor; esse trecho sustenta B.

Tema central: Paráfrase e limites da inferência
Análise das alternativas
A
Errada
Generaliza uma crítica dirigida a um argumento. Em “O argumento da suposta humildade do pesquisador”, o autor questiona a justificativa para empregar “nós”, não afirma que os pesquisadores em geral sejam desprovidos de humildade. A alternativa também acrescenta, sem apoio textual, que eles desconsideram a construção do sentido na interlocução entre leitor, texto e autor.
B
Certa
B preserva as duas avaliações articuladas pelo autor: a impessoalidade da terceira pessoa pode provocar sensação de sufocamento, e o recurso ao plural não resolve adequadamente essa dificuldade. A expressão “mero paliativo” desqualifica a solução tentada; portanto, a busca de um meio-termo não significa aprovação do uso de “nós”.
C
Errada
A exclusão da subjetividade contradiz a afirmação de que cabe ao pesquisador “interpretá-las com sua própria subjetividade que lhe é peculiar.” Além disso, a definição da ciência como atividade voltada à descrição de evidências, e não à apresentação de ideias particulares, não é estabelecida pelo texto.
D
Errada
A expressão “uma afronta à lógica” critica especificamente o uso de “nós” por quem escreve sozinho; ela não estabelece uma exigência de submissão da ciência à Lógica formal. A suposta convergência de conclusões também não tem apoio: o autor ressalva que nada garante que as fontes “chegariam às mesmas conclusões que as suas”.
Pegadinha da questão
Confundir a tentativa de encontrar um “meio-termo” com sua aprovação pelo autor, ignorando que “mero paliativo” caracteriza essa saída como insuficiente.
Dica para questões semelhantes
  • Confira se a paráfrase preserva tanto o problema apresentado quanto a avaliação da solução: aqui, desconforto com a terceira pessoa e insuficiência do uso de “nós”.
  • Não transforme a rejeição de uma justificativa em julgamento geral sobre as pessoas que a utilizam.
  • Interprete palavras como “lógica” pelo alcance que têm no contexto, sem lhes atribuir automaticamente um sentido técnico.
  • Rejeite inferências que excluam algo reconhecido pelo texto, como a subjetividade, ou afirmem como garantido aquilo que o autor apresenta como incerto.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo