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Q4109932 Português
    [...] Como comentei na introdução, é comum que alguns autores, embora neguem o uso do “eu”, permitam, entretanto, o uso do “nós”, isto é, o emprego gramatical da primeira pessoa do plural. Devo dizer que acho a opção ainda mais estranha e curiosa do que a proibição anterior.
    Penso que tais autores, se sentindo sufocados pela impessoalidade da terceira pessoa gramatical, porém, sem querer ceder à pessoalidade da primeira pessoa do singular, acabem tentando encontrar um meio-termo no “nós”, o que, a meu ver, é mero paliativo. É que, à exceção dos trabalhos elaborados em coautoria, soa muito estranho ler um autor se referindo a si como “nós”. Soa como uma esquizofrenia.
    Para tentar justificar esse paliativo, já vi seus defensores argumentando que o uso da primeira pessoa do plural se justifica uma vez que o autor se apoia em diversas pessoas e em suas obras para poder desenvolver um trabalho científico. Assim, tentam fazer crer que o uso do “nós” é uma espécie de reconhecimento à colaboração dos demais autores que serviram de fonte às ideias do autor da pesquisa.
     Ora, com todo respeito, trata-se de uma falácia. O argumento da suposta humildade do pesquisador revela-se, na verdade, uma presunção temerosa, que, penso, deve ser evitada. Nada lhe garante que os autores que lhe serviram de fonte de pesquisa chegariam às mesmas conclusões que as suas, ou que foram corretamente interpretados em suas ideias. Em verdade, não cabe ao pesquisador declarar a vontade de suas fontes, apenas interpretá-las com sua própria subjetividade que lhe é peculiar.
    Além de gerar um ruído na comunicação, entendo que o uso da primeira pessoa do plural por um indivíduo que elabora sozinho um texto acadêmico representa uma afronta à lógica, já que nada justifica se referir a si como “nós”, quando se está completamente sozinho no ato de escrever. Sendo o caso de ser uma pesquisa que teve ajudantes ou colaboradores, uma forma de valorizar sua participação é torná-los coautores ou mencioná-los diretamente no trabalho. [...]


CERSOSIMO, Samuel Oliveira. O “eu” no trabalho acadêmico: considerações sobre a proibição ao uso da primeira pessoa do singular nos textos científicos. Disponível em: https://www.academia.edu/. 
Considerando a linha argumentativa desenvolvida no texto, assinale a alternativa integralmente CORRETA.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério é verificar se a alternativa preserva as razões efetivamente mobilizadas pelo autor, sem confundir a justificativa refutada com sua posição. A frase “O argumento da suposta humildade do pesquisador revela-se, na verdade, uma presunção temerosa, que, penso, deve ser evitada.”, somada à afirmação de que o plural por quem escreve sozinho afronta a lógica, torna D a alternativa que reúne os dois fundamentos.

Tema central: Tese e fundamentos argumentativos
Análise das alternativas
A
Errada
Altera a relação causal da argumentação. O desconforto com a impessoalidade explica, na hipótese do autor, por que alguns pesquisadores procuram um meio-termo no plural. Não é a razão pela qual ele rejeita essa escolha: sua crítica se apoia na falsa justificativa de humildade e na incoerência entre autoria individual e referência plural.
B
Errada
Inverte a posição do autor ao recomendar o plural em preferência ao singular. O texto considera a permissão do plural ainda mais estranha e curiosa e refuta sua associação à humildade. Portanto, não apresenta esse recurso como forma de evitar falsa modéstia.
C
Errada
Mantém a avaliação negativa do plural, mas lhe atribui uma causa que o texto não sustenta. A subjetividade é reconhecida como própria da interpretação das fontes pelo pesquisador; não é apresentada como motivo para condenar a escolha pronominal. Para estar integralmente correta, a alternativa precisaria preservar também a justificativa do autor.
D
Certa
A alternativa D reúne duas razões efetivamente defendidas pelo autor. Primeiro, consultar fontes não permite presumir que seus autores concordariam com as conclusões da pesquisa ou que foram corretamente interpretados; por isso, o plural não se sustenta como reconhecimento humilde de sua colaboração. Segundo, a referência plural é considerada incoerente quando a autoria é individual. A formulação sobre divulgação científica deve ser entendida nesse recorte do texto: pesquisador que escreve sozinho, com ressalva expressa para a coautoria, e não como proibição universal ou regra gramatical.
Pegadinha da questão
A banca reaproveita ideias do texto, mas modifica sua função: A transforma uma motivação da escolha em fundamento da crítica; B atribui ao autor a defesa que ele refuta; C conserva a conclusão, mas troca sua justificativa.
Dica para questões semelhantes
  • Confira separadamente a conclusão da alternativa e a razão apresentada para sustentá-la: ambas precisam reproduzir a argumentação.
  • Distinga a posição do autor dos argumentos de terceiros que ele apresenta para refutar.
  • Não confunda a explicação de uma escolha linguística com o motivo usado para criticá-la.
  • Preserve o alcance da tese: aqui, a crítica se dirige à autorreferência plural de quem escreve sozinho, não aos trabalhos em coautoria.

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