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Q3406493 Português
O último homem do planeta terra

  Acostumado a acordar todos os dias com um turbilhão de buzinas, vozes e motores esfaqueando seus ouvidos, neste dia, acordou incomodado com o silêncio. Um torpor imediato. A estranheza levando-o a examinar ao redor. Aquela sensação de em que buraco me enfiei, afinal? Mas não estava em nenhum lugar estranho, estranho lugar, lugar nenhum. Era o mesmo quarto fétido de vinte e poucas primaveras. A mesma bagunça, o mesmo cheiro ácido impregnando as paredes mofadas.

  Inevitável. Saltou da cama e foi até a janela. Do lado de fora do apartamento, reinava o vazio. Silêncio absoluto. Era feriado? Devia ser, droga. Mas nem domingos, nem feriados costumavam ser absurdamente quietos assim. Havia sempre malucos correndo com seus fones de ouvido, carros passeando sem uma direção definida, bêbados cambaleantes tentando achar o caminho de volta para casa. E estaria realmente em casa?

  Ligou o rádio. Odiava locutores com bom humor. As manhãs foram criadas para serem mal-humoradas. Mas neste dia, permitiria torturar-se com o “boooooom diiiiiia” irritante vindo junto com as ondas de rádio. Precisava descobrir o que estava acontecendo.

  E que infernos estava acontecendo? A pergunta que lhe invadiu a cabeça quando, do rádio, só vieram chiados. Mudou de estação. Nada. FM. Nada. AM. Porcaria de chiado. Hertz e mega-hertz dos infernos. Deu um tapa no rádio. Teria preferido o monótono “bom dia” de uma voz grave qualquer.

  Raiva deixava-o com fome. Resolução: encher a barriga. Pão seco. Leite azedo. Desistiu. Melhor tapear a fome com uma lata de cerveja. Comeria qualquer porcaria no caminho para a faculdade.

  Quando seus pés chegaram à rua, percebeu a intensidade da estranheza. Não havia uma pessoa sequer em lugar algum. Nem caminhando, nem rastejando. Entrave para a normalidade. Suave fatalidade. Seria um sonho? Evidentemente que não. Era o caos, tão somente isso. Ou mais do que isso. Como saber? Melhor caminhar.

  E caminhou. Diante dos seus olhos, epítome da estranheza. Carros batidos. Recém-batidos. Era o que parecia. Alguns ainda fumegavam. Começou a ver pequenos incêndios.

  A pior parte foram os objetos pessoais dos transeuntes. Objetos, bolsas, pastas, roupas – tudo espalhado pelo chão. Como se tivessem evaporado de uma hora para outra. Seres distraídos em suas vidas ocupadamente desocupadas, de repente, são fulminados por uma explosão laser colossal. Todos desaparecem. Todos. Exceto um estudante de filosofia. Filosofia barata que não lhe permitia entender nem a milésima parte do que estava acontecendo. 

  Por que ele sobrevivera? Por que ainda estava ali? Será que seu apartamento possuía alguma proteção, algum dispositivo anti-raio-laser-universal-fulminador-de-inteira-humanidade? Os animais deviam ter este dispositivo também. Foi o que concluiu ao ver cães e gatos, pássaros e ratos em seus passeios despreocupados, deliciando-se com os alimentos que sobraram, caídos intactos das mãos dos seres humanos antes que tivessem tempo de levá-los a boca.

  Estava só. O último homem do planeta? Ou, melhor, o último moribundo do planeta.

  No dia seguinte, a energia acabou. Já esperava por isso. Não havia qualquer pessoa operando qualquer porcaria em qualquer lugar do planeta. Nenhum qualquer em nada qualquer. Teve sorte em não ser esmagado por um avião desgovernado que poderia estar sobrevoando sua cabeça quando o piloto e co-piloto evaporaram. Sorte? Teria sido a melhor coisa a lhe acontecer. E por não ter acontecido, tremeu na escuridão, envolvido pelo denso anoitecer.

  20 anos depois

  A vegetação dominava as ruas. Prédios e casas tomados por trepadeiras. O musgo servindo de tapete fértil para a proliferação de plantas sobre ruas e calçadas. Concreto arrebentado. Carros enferrujados. E um bando de animais tomando a cidade. Lobos e cobras, ursos e gatos selvagens reinavam na selva de pedra.

  E no meio do verde, outrora cinza, caminhava um encurvado estudante de filosofia. A barba crescida chegava ao peito. As roupas deterioradas pelo tempo se soltavam do seu corpo flácido. Caminhava lentamente. Pés descalços rastejantes. Sussurrava alguma coisa. Abram caminho. Curvem-se diante do rei. Quase inaudível. Quase elástico. As cobras e os lobos abriam espaço. Ursos e gatos pareciam até se curvar. E o homem passava. Em sua mão, apenas a réplica de um cetro enferrujado.

  Especialistas da extinta humanidade jamais seriam capazes de prever algo assim, mas tornou-se realidade: estudante de filosofia torna-se rei do planeta Terra.

(Juliano Martinz. Crônicas Corrosivas. Em: março de 2025.)
Qual das palavras a seguir, extraídas do texto, apresenta um ditongo decrescente?
Alternativas

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Tema central: Fonologia – Ditongo decrescente

Esta questão avalia a sua habilidade de reconhecer encontros vocálicos, mais especificamente o ditongo decrescente – conceito frequentemente explorado em provas, principalmente para cargos jurídicos, que valorizam o domínio da norma-padrão.

O ditongo consiste no encontro de uma vogal e uma semivogal pronunciadas numa mesma sílaba. Classifica-se em:

• Ditongo decrescente: A vogal aparece antes da semivogal (ex: pai, caixa).
• Ditongo crescente: Semivogal antes da vogal (ex: quadro).

Segundo Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, o elemento mais forte (vogal) ocorre primeiro no ditongo decrescente.

Análise das alternativas:

A) Saídasa-í-da: Apresenta hiato entre “a” e “í”, pois pertencem a sílabas separadas (vogal + vogal em sílabas distintas).

B) Chiadochi-a-do: Ocorre hiato entre “i” e “a”. Não há ditongo.

C) Reinadorei-na-do: Em “rei”, a vogal “e” é seguida da semivogal “i”, constituindo um ditongo decrescente na mesma sílaba. Esta é a alternativa correta.

D) Espalhadoes-pa-lha-do: Não há ditongo nem hiato, “lh” é dígrafo consonantal.

Dica para a prova: Cuidado com pegadinhas! Hiatos costumam ser confundidos com ditongos. Verifique sempre a divisão silábica pela pronúncia. Palavras como “saída” e “chiado” não possuem vogal e semivogal na mesma sílaba, logo não trazem ditongo.

Regra importante: “O ditongo é decrescente quando o núcleo silábico é uma vogal, seguido por uma semivogal.” (CUNHA & CINTRA – Nova Gramática do Português Contemporâneo)

Resposta correta: C) Reinado.

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Comentários

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Um ditongo decrescente ocorre quando uma vogal precede uma semivogal na mesma sílaba. Isso significa que a vogal, que tem um som mais forte, vem antes da semivogal, que tem um som mais fraco. Este encontro de sons resulta num som único e contínuo dentro da sílaba.

Letra C.

Ditongo CRESCENTE = Semivogal + vogal.

Ditongo DECRESCENTE = Vogal + semivogal.

Bons estudos!! ❤️✍

REI-NA-DO

DITONGO - "EI"

E: VOLGAL / I: SEMI

Vogal para semi = decrescente

Semi para vogal = crescente

Obs: Vogal "A" nunca será semivogal

Semivogal terá SOM de "I" ou "U"

A palavra "saída" apresenta um ditongo decrescente. Isso ocorre porque, na divisão silábica (sa-í-da), a vogal "i" (som mais forte) vem após a semivogal "a" (som mais fraco), indicando um decréscimo na intensidade sonora dentro da mesma sílaba. 

  • Na palavra "saída",
  • o "a" é a vogal (som mais forte) e o "i" é a semivogal (som mais fraco), formando um ditongo na sílaba "sa-í". 

Diante disso, fiquei na dúvida.

Algúem consegue esclarecer?

Salve, Vitor. A palavra ''saída'' não apresenta um ditongo! Um ditongo consiste no encontro de duas vogais na mesma sílaba. exemplo: rEI-na-do.                             A palavra saída apresenta na verdade um hiato, e um hiato ocorre quando duas vogais estão separadas em sílabas consecutivas. observe: sA-Í-da. o ''a'' e o ''i'' estão separados em sílabas consecutivas, se estivessem na mesma sílaba seria um ditongo, como não estão, formam um hiato. Espero que goste do feedback.

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