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Q3406491 Português
O último homem do planeta terra

  Acostumado a acordar todos os dias com um turbilhão de buzinas, vozes e motores esfaqueando seus ouvidos, neste dia, acordou incomodado com o silêncio. Um torpor imediato. A estranheza levando-o a examinar ao redor. Aquela sensação de em que buraco me enfiei, afinal? Mas não estava em nenhum lugar estranho, estranho lugar, lugar nenhum. Era o mesmo quarto fétido de vinte e poucas primaveras. A mesma bagunça, o mesmo cheiro ácido impregnando as paredes mofadas.

  Inevitável. Saltou da cama e foi até a janela. Do lado de fora do apartamento, reinava o vazio. Silêncio absoluto. Era feriado? Devia ser, droga. Mas nem domingos, nem feriados costumavam ser absurdamente quietos assim. Havia sempre malucos correndo com seus fones de ouvido, carros passeando sem uma direção definida, bêbados cambaleantes tentando achar o caminho de volta para casa. E estaria realmente em casa?

  Ligou o rádio. Odiava locutores com bom humor. As manhãs foram criadas para serem mal-humoradas. Mas neste dia, permitiria torturar-se com o “boooooom diiiiiia” irritante vindo junto com as ondas de rádio. Precisava descobrir o que estava acontecendo.

  E que infernos estava acontecendo? A pergunta que lhe invadiu a cabeça quando, do rádio, só vieram chiados. Mudou de estação. Nada. FM. Nada. AM. Porcaria de chiado. Hertz e mega-hertz dos infernos. Deu um tapa no rádio. Teria preferido o monótono “bom dia” de uma voz grave qualquer.

  Raiva deixava-o com fome. Resolução: encher a barriga. Pão seco. Leite azedo. Desistiu. Melhor tapear a fome com uma lata de cerveja. Comeria qualquer porcaria no caminho para a faculdade.

  Quando seus pés chegaram à rua, percebeu a intensidade da estranheza. Não havia uma pessoa sequer em lugar algum. Nem caminhando, nem rastejando. Entrave para a normalidade. Suave fatalidade. Seria um sonho? Evidentemente que não. Era o caos, tão somente isso. Ou mais do que isso. Como saber? Melhor caminhar.

  E caminhou. Diante dos seus olhos, epítome da estranheza. Carros batidos. Recém-batidos. Era o que parecia. Alguns ainda fumegavam. Começou a ver pequenos incêndios.

  A pior parte foram os objetos pessoais dos transeuntes. Objetos, bolsas, pastas, roupas – tudo espalhado pelo chão. Como se tivessem evaporado de uma hora para outra. Seres distraídos em suas vidas ocupadamente desocupadas, de repente, são fulminados por uma explosão laser colossal. Todos desaparecem. Todos. Exceto um estudante de filosofia. Filosofia barata que não lhe permitia entender nem a milésima parte do que estava acontecendo. 

  Por que ele sobrevivera? Por que ainda estava ali? Será que seu apartamento possuía alguma proteção, algum dispositivo anti-raio-laser-universal-fulminador-de-inteira-humanidade? Os animais deviam ter este dispositivo também. Foi o que concluiu ao ver cães e gatos, pássaros e ratos em seus passeios despreocupados, deliciando-se com os alimentos que sobraram, caídos intactos das mãos dos seres humanos antes que tivessem tempo de levá-los a boca.

  Estava só. O último homem do planeta? Ou, melhor, o último moribundo do planeta.

  No dia seguinte, a energia acabou. Já esperava por isso. Não havia qualquer pessoa operando qualquer porcaria em qualquer lugar do planeta. Nenhum qualquer em nada qualquer. Teve sorte em não ser esmagado por um avião desgovernado que poderia estar sobrevoando sua cabeça quando o piloto e co-piloto evaporaram. Sorte? Teria sido a melhor coisa a lhe acontecer. E por não ter acontecido, tremeu na escuridão, envolvido pelo denso anoitecer.

  20 anos depois

  A vegetação dominava as ruas. Prédios e casas tomados por trepadeiras. O musgo servindo de tapete fértil para a proliferação de plantas sobre ruas e calçadas. Concreto arrebentado. Carros enferrujados. E um bando de animais tomando a cidade. Lobos e cobras, ursos e gatos selvagens reinavam na selva de pedra.

  E no meio do verde, outrora cinza, caminhava um encurvado estudante de filosofia. A barba crescida chegava ao peito. As roupas deterioradas pelo tempo se soltavam do seu corpo flácido. Caminhava lentamente. Pés descalços rastejantes. Sussurrava alguma coisa. Abram caminho. Curvem-se diante do rei. Quase inaudível. Quase elástico. As cobras e os lobos abriam espaço. Ursos e gatos pareciam até se curvar. E o homem passava. Em sua mão, apenas a réplica de um cetro enferrujado.

  Especialistas da extinta humanidade jamais seriam capazes de prever algo assim, mas tornou-se realidade: estudante de filosofia torna-se rei do planeta Terra.

(Juliano Martinz. Crônicas Corrosivas. Em: março de 2025.)
O título “O último homem do planeta terra” sugere um enredo que aborda:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito Comentado – Interpretação de Texto para Concurso (Advogado)

Tema central da questão: Interpretação de texto - compreensão de ideias explícitas e implícitas, com foco em inferir o tema principal do enredo.

Esta questão exige que o candidato identifique, por meio da leitura crítica, a mensagem predominante do texto. Como ensinam Bechara (Gramática Escolar da Língua Portuguesa) e Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), interpretar corretamente vai além de encontrar informações literais; envolve captar o sentido global, inferências e reflexões sugeridas.

Alternativa correta: D) Uma reflexão filosófica sobre a solidão e o papel do ser humano no mundo.

Justificativa: O texto descreve não só a trajetória do último homem do planeta, mas usa esta situação extrema para propor uma reflexão existencial: o isolamento absoluto e a percepção de insignificância ou alteridade do ser humano diante da ausência dos outros. São frequentes os questionamentos, a angústia e a busca de sentido, culminando no “rei do planeta Terra”, sem súditos. É o olhar filosófico sobre a condição humana, tópico central da narrativa.

Análise das alternativas incorretas:

A) Uma crítica social aos hábitos destrutivos da sociedade moderna.
Embora sintamos menções à rotina urbana e algum desconforto com o “vazio”, o autor não faz uma crítica direta e estruturada aos hábitos ou valores da sociedade. Esse não é o eixo do enredo, mas um pano de fundo.

B) Um relato científico sobre as possíveis causas da extinção humana.
A narrativa não apresenta caráter científico: não há explicações nem investigação das causas da extinção. O texto é literário e introspectivo.

C) Um cenário futurista onde um homem luta para preservar a humanidade.
Em nenhum momento o protagonista tenta preservar a espécie humana; ao contrário, ele apenas sobrevive e assume o papel de “último homem”, resignado e solitário.

Estratégia para questões semelhantes:

Ao interpretar textos, busque as palavras e passagens que revelam a atitude e os sentimentos dos personagens, além do tratamento do enredo dado pelo autor. Evite respostas baseadas em termos genéricos (ex: “crítica social”, “relato científico”) quando o texto não fornecer elementos claros nesse sentido.

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Comentários

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Apesar de ter acertado, acho que essa banca aposta em pegadinhas e numa interpretação de texto para lá de peculiar. Isso transforma a prova em questão de sorte, não de conhecimento .

pois é, mano. consulplan pesa a mão por nada.

É um óbvio que não é óbvio, I. Consulplan é muito intuitiva kkk

Eu não concordo com o gabarito. O título não sugere nada filosófico, nem reflexão. A letra D trata da interpretação do texto, se essa tivesse sido a pergunta.

Quando leio apenas o título, vejo que a letra C ("Um cenário futurista onde um homem luta para preservar a humanidade.") está mais de acordo.

Quando me deparo com questões como essa eu penso e se eu tivesse contato com esse titulo o que eu pensaria e tenho acertado as questões.

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