Grafias surpreendentes revelam escrita baseada na
oralidade
Nestes nossos tempos de redes sociais e de aplicativos
de mensagens, todos passamos a escrever com muito mais
frequência, mas sempre preocupados em simular uma fala
descontraída com nosso interlocutor. Surge, assim, um registro
escrito informal, que vai migrando para outros domínios,
aqueles em que, há não muito tempo, cultivávamos algum grau
de formalidade.
Nos diálogos escritos, lançamos mão de muitos pontos
de exclamação para mostrar entusiasmo pela conversa (Bom
dia!) e suprimimos o ponto final para não sermos deselegantes
ou grosseiros. Num papo ainda mais informal, simulamos a
linguagem das histórias em quadrinhos e fazemos uma longa
sequência de vogais para tentar reproduzir excepcionalmente a
fala (oiii!). Palavras que não imaginaríamos escritas aparecem
diante de nossos olhos e ficam registradas para a posteridade:
“oie”, “tá bão”, “óia”.
Os emojis, as figurinhas e os memes, às vezes,
substituem as palavras nessa comunicação escrita informal, em
que importa ser engraçado e simpático. As frases são curtas,
no melhor estilo telegráfico (saberão os jovens o que significa
“telegráfico”?). Procura-se mimetizar a fala, que é o referencial
dessas mensagens. Daí ser problemático usar o aplicativo para
outros tipos de comunicação, que requerem, na vida real,
alguma formalidade.
Como a fala é o referencial, por excelência, das
mensagens trocadas nos aplicativos, nos chats e nas redes
sociais, passamos a escrever não só como falamos, mas
também como ouvimos, o que pode nos pôr diante de algumas
grafias surpreendentes. Os exemplos que trago aqui não foram
colhidos fortuitamente; são, na verdade, cada vez mais
frequentes.
Um site de nome “Dicionário Informal” registra a forma
“dale”, assim definida: “vibração positiva, comemoração,
enaltecer algo ou alguém” e seguida de “abonação”: “Dale
Ayrton Senna do Brasil!” “Dale”, na verdade, é “dá-lhe”. Dizemos
“dá-lhe” quando torcemos para que, numa disputa, alguém
vença o adversário. Algumas pessoas pronunciam o “lh” como
“l”, o que é muito comum. A grafia, no entanto, é objeto de
convenção. Ou era.
Grafias como “agente” no lugar de “a gente”, “afim” no
lugar de “a fim”, “com certeza” no lugar de “com certeza”,
“fachetária” no lugar de “faixa etária” ou mesmo “ainda sim” no
lugar de “ainda assim” e “dale” no lugar de “dá-lhe” são típicas
de uma espécie de “português de ouvido”, que revela certa
imaturidade no manejo da língua, sobretudo na sua dimensão
formal.
NICOLETI, Thaís. Grafias surpreendentes revelam escrita baseada na
oralidade. Folha de S.Paulo [edição virtual], São Paulo, 18 abr. 2022.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/thais
nicoleti/2022/04/grafias-surpreendentes-revelam-escrita-baseada-na
oralidade.shtml. Acesso em: 06 abr. 2026.
No Texto 3, a referência ao “português de ouvido” relaciona
se a um fenômeno de variação linguística em que
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