Outro dia, queixei-me da cacofonia provocada pelo bater
dos martelos na mídia. A frequência com que os jornais, sites e
a turma do rádio e da televisão se referem a “bater o martelo”,
para dizer que alguém tomou uma decisão, é ensurdecedora —
aliás, ensurdecedora também é uma palavra de ensurdecer. Até
há pouco, só os juízes e leiloeiros batiam o martelo e, mesmo
assim, discretamente. Hoje, pelo bater do martelo à nossa volta,
é incrível que ainda consigamos nos escutar.
“Bater o martelo” é um clichê, uma expressão que nos
vem à ponta da língua ou ao teclado sem que precisemos
pensar. Clichês têm vida própria e, quase sempre, sem razão
de ser. “Na ponta do lápis”, para indicar um cálculo feito com
precisão, é outro. Como usar um lápis se não for pela ponta que
contém o grafite? Já “na ponta da faca” é o contrário. Quando
ouço falar num picadinho feito “na ponta da faca”, pergunto-me
se a lâmina, e não a ponta, não seria mais prática para o
cozinheiro.
Uma frase que comece por “Na verdade...” também me
intriga. Eu próprio às vezes me distraio e a uso. Mas alguém
começará uma frase por “Na mentira...”? E o que dizer de
“pontuar” no sentido de garantir, afirmar, deixar claro? “Fulano
pontuou que sua dieta o proíbe de comer carambola” ou coisa
assim. Se temos o verbo pontuar, por que não o verbo virgular,
para significar uma coisa que talvez ainda não se possa afirmar
com certeza? “Fulano virgulou que...”
Incompreensível também é chamar de “bloquinho” um
megabloco de Carnaval composto de 1 milhão de figurantes.
Aliás, o correto seria nem chamá-lo de bloco, se por bloco
entende-se historicamente um grupo de foliões em cortejo pelas
ruas, cantando e dançando ao som de surdos e tamborins. Um
amontoado de gente na fila do gargarejo de um palco, pulando
de um pé para o outro e tentando ver o artista pelo telão, não é
um bloco — é um show como outro qualquer, com ou sem
Carnaval.
Eu sei, essas ranhetices são firulas, para as quais a voz
do povo não está nem aí. Pronto — virgulei.
CASTRO, Ruy. Clichês na ponta da língua. Folha de S.Paulo [edição virtual],
São Paulo, 18 fev. 2026. Disponível em:
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/02/cliches-na-ponta-da
lingua.shtml. Acesso em: 06 abr. 2026.
No primeiro parágrafo do Texto 1, no trecho “aliás,
ensurdecedora também é uma palavra de ensurdecer”, o
verbo “ensurdecer” é uma palavra formada pelo processo de
derivação
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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