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Q3768532 Português
As árvores e nós


   Folhas, raízes, brotos, caule, flores, tempo. As árvores são as verdadeiras donas do tempo. Ou pelo menos deveriam ser reconhecidas assim. Não só pela ancestralidade porque sim, merecem todo nosso respeito, elas são nossas parentes mais distantes, mas porque vieram antes de nós. Respeitar o meio ambiente é compreender que precisamos respeitar a vida e a experiência dos mais velhos. E a partir daqui já podemos compreender que estamos dentro de um trem descarrilado indo de encontro ao muro.

   Estamos nos transformado numa sociedade embrutecida, arrogante, gananciosa e completamente ignorante. Os professores estão sendo apedrejados em sala de aula, os mais velhos completamente desrespeitados, as crianças e adolescentes cada vez mais dentro da internet e sem conexão com o mundo real e todo mundo mais e mais medicamentado para suportar o peso da vida. Associado a isso, a violência, o trânsito sem regras, os maus-tratos aos animais que cresce em escala exponencial e o descaso com o meio ambiente.

   Quando uma árvore é cortada por pura ganância ou porque atrapalha ou porque cresceu no lugar errado ou porque suas folhas sujam o chão, fico me perguntando quando foi que perdemos a conexão com a natureza? Quando foi que nossa arrogância ficou maior que a empatia? Dias atrás as motosserras do poder público e também do privado fizeram e fazem podas drásticas e sem nenhum tipo de respeito às plantas. Que tipo de política é essa? Árvore não é enfeite. É um ser vivo e necessário.

   Ao lado do meu computador tenho uma imagem que reproduz a nossa galáxia. Gosto de olhar para ela toda vez que sento para escrever. A imagem das estrelas, dos planetas em órbita e do sol perdido em meio a este vasto e misterioso universo é um ótimo lembrete da minha insignificância. Afinal, o que somos perto desta imensidão sem fim? Respondo: nada. Há quantos anos existe nossa galáxia? E nosso planeta? Já eu e você temos um tempo minúsculo por aqui, na melhor das hipóteses, 80, 90 anos. Nossa passagem é brevíssima. E mesmo assim somos campeões em fazer bobagem.

   Precisamos desenvolver uma espécie de ecologia das práticas cotidianas. Para isso é preciso voltar a estar com o planeta e não achar que se tem poder sobre ele. Não somos isolados do mundo. Este discurso contemporâneo do individualismo ainda vai nos fazer muito mal. Por que se o mundo do lado de fora é um reflexo do que temos dentro, que tipo de mundo nos habita? Aliás, o que habita em nós está nos acompanhando ou nos escravizando?


Autora: Adriana Antunes - GZH (adaptado).
O texto apresenta uma reflexão crítica sobre o afastamento humano da natureza e, de modo mais amplo, da própria vida em sua dimensão ética e comunitária. A autora articula esse afastamento a um processo social de embrutecimento, no qual violências simbólicas e materiais se tornam naturalizadas. Considerando a tessitura argumentativa do texto e os nexos que o estruturam, assinale a alternativa que evidencia uma leitura compatível com a perspectiva defendida pela autora.
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão avalia interpretação de texto, destacando princípios de coerência (lógica interna, relação de sentido entre as ideias) e coesão (conectores e mecanismos linguísticos que unem partes do texto).

Justificativa da alternativa correta (D):
A alternativa D afirma que o individualismo contemporâneo e a destruição ambiental estão interligados, ambos frutos de um distanciamento ético que impede a percepção da interdependência entre vida, coletividade e natureza. Observe, no texto, a crítica ao “discurso contemporâneo do individualismo” e às práticas que “nos fazem mal”. A autora ressalta que “precisamos voltar a estar com o planeta” e questiona “que tipo de mundo nos habita?”, mostrando que tais posturas prejudicam não só o ambiente, mas as relações humanas como um todo. Esta alternativa mantém plena coerência com a tese defendida e os nexos argumentativos apresentados ao longo do texto.

Estratégia de resolução:
Para acertar questões assim, busque palavras-chave que indiquem relações de causa, oposição ou conclusão, além de não se deixar enganar por alternativas que pareçam corretas, mas desviam o foco da ideia central. Autores como Irandé Antunes e Ingedore Koch recomendam atenção ao encadeamento lógico dos enunciados e à intenção do texto.

Análise das alternativas incorretas:

A) Diz que a incapacidade de reconhecer a insignificância diante do universo explicaria de forma direta o individualismo. O texto sugere isso, mas não afirma que a relação é tão direta – a autora argumenta sobre um processo social e ético, não apenas de reconhecimento cósmico.

B) Afirma que desrespeitos são consequências periféricas de uma crise moral cujos núcleo é só a incompreensão do lugar humano no universo. Parcial – a crise vai além dessa incompreensão e envolve perda de empatia e conexão, aspectos mais amplos discutidos no texto.

C) Indica que a ruptura homem-natureza tem origem prioritária nos fenômenos contemporâneos (tecnologia, medicalização). A autora cita esses fenômenos, mas não os coloca como origem, e sim como sintomas da desconexão.

Dica para provas: Atenção a palavras como "apenas", "diretamente", "prioritariamente" e a generalizações. Evite se fixar em detalhes soltos—busque o foco principal do argumento.

Resumo: A alternativa D é a única que articula com precisão a crítica da autora ao distanciamento ético que compromete as relações coletivas e com a natureza, respeitando a coerência textual exigida.

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