Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q851061 Português

      Na frente da câmara fotográfica, ninguém precisa nos dizer "Sorria!"; espontaneamente, simulamos grandes alegrias. Em regra, hoje, nas redes sociais, onde a maior parte das pessoas compartilham seus álbuns, os retratos parecem mostrar pessoas rivalizando para ver quem aparenta aproveitar melhor a vida.

      O hábito de sorrir nos retratos é recente. Os antigos retratos pintados pediam poses longas e repetidas, para as quais era mais fácil adotar uma expressão "natural". O mesmo vale para as primeiras fotos: os tempos de exposição eram longos demais. Outra explicação para o fato é que o retrato, até a terceira década do século 20, era uma ocasião rara e, por isso, um pouco solene.

      Mas resta que nossos antepassados, na hora de serem imortalizados, queriam deixar à posteridade uma imagem de seriedade e compostura, enquanto nós, na mesma hora, sentimos a necessidade de sorrir escancaradamente.

      É certo que o hábito de sorrir na fotografia se estabeleceu quando as câmaras fotográficas portáteis banalizaram o retrato. Mas é duvidoso que nossos sorrisos tenham sido inventados para essas câmaras. É mais provável que as câmaras tenham surgido para satisfazer a dupla necessidade de registrar (e mostrar aos outros) nossa suposta "felicidade" em duas circunstâncias que eram novas ou quase: a vida da família nuclear e o tempo de férias.

      De fato, o álbum de fotos das crianças e o das férias são os grandes repertórios do sorriso. No primeiro, as crianças devem mostrar a nós e ao mundo que elas preenchem sua missão: a de realizar (ou parecer realizar) nossos sonhos frustrados de felicidade. Nas fotos das férias, trata-se de provar que nós também (além das crianças) sabemos ser "felizes". Em suma, o sorriso é, hoje, o grande sinal exterior da capacidade de aproveitar a vida. É ele que deveria nos valer a admiração (e a inveja) dos outros.

      De uma época em que nossa maneira e nossa capacidade de enfrentar a vida eram resumidas por uma espécie de seriedade intensa, passamos a um momento em que saber viver coincide com saber sorrir. Nessa passagem, não há só uma mudança de expressão: no passado valorizava-se uma atenção focada e reflexiva, enquanto hoje parecemos valorizar a diversão.

      Ao longo do século 19, antes que o sorriso deturpasse os retratos, a "felicidade" e a alegria excessivas eram, aliás, sinais de que o retratado estava dilapidando seu tempo, incapaz de encarar a complexidade e a finitude da vida.

      Tudo isso seria uma nostalgia sem relevância, se, valorizando o sorriso, conseguíssemos tornar a dita felicidade prioritária em nossas vidas. Em tese, a valorização ajuda a alcançar o que é valorizado. Mas pesquisas mostram que, no caso da felicidade (mesmo que ninguém saiba o que ela é exatamente ou talvez por isso), acontece o contrário: valorizar a felicidade produz insatisfação e mesmo depressão. De que se trata? Decepção? Sentimento de inadequação? Um pouco disso tudo e, mais radicalmente, trata-se da sensação de que não temos competência para viver − apenas para fazer de conta. Como chegamos a isso?

                                (Adaptado de Contardo Calligaris. Folha de S. Paulo, 28/06/2012) 

No texto, o autor
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Análise e Interpretação da Questão

Esta questão aborda a interpretação de texto, focando na habilidade de compreender as ideias principais e as conclusões do autor. O texto fornecido discute a evolução do hábito de sorrir em fotografias ao longo do tempo, especialmente com o advento das redes sociais.

Identificação da Alternativa Correta

A alternativa A é a correta. O autor infere que o sorriso nas fotografias pode ser uma representação não totalmente autêntica de alegria. Ele discute como a necessidade de sorrir em fotografias se tornou mais comum a partir do século 20. O texto sugere que os sorrisos, muitas vezes, são para mostrar uma "suposta felicidade" e como as câmeras portáteis popularizaram essa prática.

Análise das Alternativas Incorretas

B - Esta alternativa está incorreta porque o autor não conclui que a câmara fotográfica causou mudanças comportamentais nos núcleos familiares. Ele menciona que as câmeras portáteis banalizaram o retrato, mas sem esse foco específico em mudanças familiares.

C - Esta alternativa não é válida porque o texto não aborda diretamente o papel das redes sociais em estimular competitividade e narcisismo. O foco está mais na representação da felicidade nas fotografias.

D - Está incorreta, pois o texto não afirma que apenas crianças mostram espontaneidade nas fotos. Embora mencione albuns de crianças, não faz essa comparação direta entre adultos e crianças.

E - Esta alternativa é incorreta porque o texto não critica diretamente usuários da internet por provocar inveja. Ele discute a busca por mostrar felicidade, mas não há uma crítica explícita a esse comportamento nas redes.

Conclusão

Para resolver questões de interpretação de texto, é importante focar nas palavras-chave e nas ideias principais do autor. Identificar a intenção e a conclusão do texto pode ajudar a selecionar a alternativa correta. Em questões futuras, aprofunde-se na análise do texto e sempre questione o que cada parte do texto está realmente afirmando.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Letra A – CERTA – Sétimo parágrafo: Ao longo do século 19, antes que o sorriso deturpasse os retratos, a "felicidade" e a alegria excessivas eram, aliás, sinais de que o retratado estava dilapidando seu tempo, incapaz de encarar a complexidade e a finitude da vida. As aspas conferem ênfase a uma palavra fora de seu significado habitual, ou seja, a felicidade à qual o autor se refere não é sentimento genuíno. Além disso, é possível inferir que o hábito de sorrir nas fotos tenha início a partir do fim da terceira década do século 20, pois o autor menciona que“[...] nossos antepassados, na hora de serem imortalizados, queriam deixar à posteridade uma imagem de seriedade e compostura, enquanto nós, na mesma hora, sentimos a necessidade de sorrir escancaradamente” (3º parágrafo).

Portanto, é possível deduzir a partir do texto que o sorriso não é algo autêntico e que o ato de sorrir para a câmera surgiu em algum momento do século XX.

Letra B - ERRADA. O Autor compara passado com presente, mas não atribui à câmara fotográfica as mudanças nos comportamentos familiares. Isso fica claro na passagem do 4 º parágrafo: É mais provável que as câmaras tenham surgido para satisfazer a dupla necessidade de registrar (e mostrar aos outros) nossa suposta "felicidade" em duas circunstâncias que eram novas ou quase: a vida da família nuclear e o tempo de férias.

Letra C – ERRADA. A fotos, e não as redes sociais, estão por trás dessa competitividade, cujo objetivo é aparentar quem curte melhor a vida.

Letra D – ERRADA. Questiona também a autenticidade do sorriso nas crianças. Quinto parágrafo: Nas fotos das férias, trata-se de provar que nós também (além das crianças) sabemos ser "felizes". As aspas são usadas aqui para dar destaque a uma palavra fora de seu contexto.

Letra E – ERRADA. Não se trata apenas de fotos de lazer; nas redes sociais, hoje, segundo o autor, pessoas competem umas com as outras publicando “álbuns”, ostentando quem aproveita melhor a vida.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo