Uma comunidade cujos princípios e normas mudassem a cada dia...

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Q851060 Português

                             Dialética da mudança


      Certamente porque não é fácil compreender certas questões, as pessoas tendem a aceitar algumas afirmações como verdades indiscutíveis e até mesmo a irritar-se quando alguém insiste em discuti-las. É natural que isso aconteça, quando mais não seja porque as certezas nos dão segurança e tranquilidade. Pô-las em questão equivale a tirar o chão de sob nossos pés.

      No passado distante, quando os valores religiosos se impunham à quase totalidade das pessoas, poucos eram os que os questionavam, mesmo porque, dependendo da ocasião, pagavam com a vida seu inconformismo. Com o desenvolvimento do pensamento objetivo e da ciência, aquelas certezas inquestionáveis passaram a segundo plano, dando lugar a um novo modo de lidar com elas e com os valores. Questioná-los, reavaliá-los, negá-los, propor mudanças às vezes radicais tornouse frequente e inevitável, dando-se início a uma nova época da sociedade humana. Introduziu-se o conceito não só de evolução como o de revolução.

      Naturalmente, essas mudanças não se deram do dia para a noite, nem tampouco se impuseram à maioria da sociedade. O que ocorreu foi um processo difícil e conflituado em que, pouco a pouco, a visão inovadora veio ganhando terreno e, mais do que isso, conquistando posições estratégicas, o que tornou possível influir na formação de novas gerações, menos resistentes a visões questionadoras.

      A certa altura desse processo, os defensores das mudanças acreditavam-se senhores de novas verdades, mais consistentes porque eram fundadas no conhecimento objetivo das leis que governam o mundo material e social. Em outras palavras, bastaria apresentar-se como inovador para estar certo. Será isso verdade? Os fatos demonstram que tanto pode ser sim como não.

      Mas também pode estar errado quem defende os valores consagrados e aceitos. Só que, em muitos casos, não há alternativa senão defendê-los. E sabem por quê? Pela simples razão de que toda sociedade é, por definição, conservadora, uma vez que, sem princípios e valores estabelecidos, seria impossível o convívio social. Uma comunidade cujos princípios e normas mudassem a cada dia seria caótica e, por isso mesmo, inviável.

(Transcrição de trechos do artigo de Ferreira Gullar. Folha de S. Paulo, E10 Ilustrada, 6 de maio de 2012) 

Uma comunidade cujos princípios e normas mudassem a cada dia seria caótica e, por isso mesmo, inviável.


O pronome grifado acima estaria corretamente empregado na lacuna da frase:

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O trecho do enunciado mostra o padrão correto do relativo possessivo: "Uma comunidade cujos princípios e normas mudassem a cada dia seria caótica e, por isso mesmo, inviável." A alternativa B é a que reproduz esse mecanismo, pois "cujos desdobramentos" mantém a relação de posse/pertinência entre "mudanças" e o termo subsequente, com a concordância exigida pelo substantivo possuído.

Tema central: Pronome relativo cujo
Análise das alternativas
A
Errada
Há relação possível entre "mudanças" e "resultados", mas a construção está errada pela regência de "debruçar-se sobre". O correto seria "sobre cujos resultados se debruçaram muitos especialistas". Sem a preposição, a oração relativa fica sintaticamente inadequada.
B
Certa
Em B, a lacuna admite o relativo possessivo com concordância adequada em "cujos desdobramentos", ligado a "mudanças" sem exigir preposição na construção apresentada.
C
Errada
O erro está na regência de "beneficiar-se", que exige a preposição "de". A forma adequada seria "de cujos valores todos se beneficiam". Sem essa preposição antes do relativo, o emprego de "cujo" não atende à construção exigida.
D
Errada
A locução "estar sujeito" exige a preposição "a". Portanto, a construção correta seria "a cujos preceitos todos, sem exceção, estão sujeitos". Como a preposição não aparece antes do relativo, a alternativa está incorreta.
E
Errada
A expressão "estar ciente" rege a preposição "de". Assim, o correto seria "de cujos conteúdos todos devem estar cientes". A ausência dessa preposição invalida a construção, embora "cujos conteúdos" pareça formalmente aceitável.
Pegadinha da questão
A banca explorou duas confusões reais: achar que basta haver ideia de pertinência entre os substantivos para usar "cujo" e esquecer que a oração relativa pode exigir preposição antes do pronome; por isso A, C, D e E parecem plausíveis, mas caem por regência.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se o termo depois de "cujo" é algo que pertence, decorre ou se vincula ao antecedente.
  • Faça a concordância de "cujo" com o substantivo subsequente, não com o antecedente.
  • Teste a regência da oração relativa: se o verbo ou nome exigir preposição, ela deve vir antes de "cujo".
  • Elimine alternativas que usem "cujo" como se fosse simples equivalente de "que" ou "o qual".

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Comentários

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CUJO é pronome relativo que só pode ser utilizado quando há ideia de posse.

Pronome Relativo - CUJO


Vêm entre 2 substantivos

Indicam posse

Concordam com o consequente, mas retoma termo antecedente

Não admitem artigo depois

Não admite duplicação de posse (seu, dele, do...)


A)  Significativas mudanças nas áreas econômica e política, (sobre) cujos resultados se debruçaram muitos especialistas, consolidaram regimes democráticos em todo o mundo.

B)  GABARITO

C)     A vida em uma sociedade organizada, (de) cujos valores todos se beneficiam, possibilita avanços consideráveis em todas as áreas do conhecimento.  

D)    A cidadania envolve a responsabilidade no respeito à ordem social (a) cujos preceitos todos, sem exceção, estão sujeitos. 

E)     As normas vigentes em uma sociedade organizada, (de) cujos conteúdos todos devem estar cientes, garantem paz e tranquilidade aos cidadãos.  



Uma dica... para vir entre dois substantivos, precisa estar na mesma oração, logo, as frases que tem virgula (A C e E) não poderiam ser as corretas.

A)  Significativas mudanças nas áreas econômica e política, em cujos resultados se debruçaram muitos especialistas, consolidaram regimes democráticos em todo o mundo.

B)  A visão ideológica de parte considerável do mundo contemporâneo sofreu mudanças cujos desdobramentos foram decisivos para a eclosão de litígios entre países.

C)     A vida em uma sociedade organizada, de cujos valores todos se beneficiam, possibilita avanços consideráveis em todas as áreas do conhecimento.  

D)    A cidadania envolve a responsabilidade no respeito à ordem social a cujos preceitos todos, sem exceção, estão sujeitos. 

E)     As normas vigentes em uma sociedade organizada, de cujos conteúdos todos devem estar cientes, garantem paz e tranquilidade aos cidadãos.  

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