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“Há beleza na velhice”, diz Alexandre Kalache, especialista em longevidade


Um dos mais respeitados nomes do mundo na área diz que o Brasil precisa correr para dar conta do envelhecimento da população


    O gerontólogo carioca Alexandre Kalache, de 80 anos, começou a se interessar pelos impactos do envelhecimento na sociedade há cinco décadas, quando ele e o Brasil ainda eram jovens. Como pesquisador da prestigiada Universidade de Oxford, no Reino Unido, e diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), cargo que ocupou entre 1995 e 2008, previu que o país não estava pronto para um aumento do número de idosos em movimento tão acelerado, correndo sério risco de ser incapaz de oferecer qualidade de vida aceitável para a chamada terceira idade, além da dificuldade de o sistema de Previdência manter a aposentadoria de volumoso grupo. O Brasil registra, atualmente, 15% da população com mais de 60 anos. Em 1975, eram 5% e estima-se serem 30% em 2050. Internacionalmente respeitado, Kalache falou à VEJA a respeito do futuro grisalho – que reserva imensos obstáculos, sem dúvida, mas também magníficas oportunidades.

    Quais desafios o Brasil, que envelhece em ritmo tão acelerado, terá de enfrentar no futuro? A principal questão brasileira é ter envelhecido antes de se tornar uma nação próspera. Na prática, as pessoas estão vivendo muito mais, o que é um fato a ser celebrado. Mas o país não se preparou para tal fenômeno, que tem um impacto gigantesco nos sistemas de saúde e Previdência e no próprio PIB. Também a mão de obra encolhe, já que essa multidão de cabeça branca sai do mercado sem que haja reposição em igual velocidade. Nesta era, os brasileiros estão tendo menos filhos, daí a população jovem diminuir em ritmo tão acelerado. Em 2050, haverá o dobro de idosos, que representarão 30% da população.

    Qual, então, o caminho a percorrer para minimizar tais efeitos? A França levou 145 anos para duplicar sua população e nós registraremos o mesmo em apenas dezenove. São oito gerações a menos para se adaptar. Não é pouco. É preciso começar já a criar políticas para esticar o tempo das pessoas na ativa, garantindo-lhes condições compatíveis com sua idade. Mas devemos, antes de tudo, fazer uma profunda reflexão sobre o que é ser velho. No Brasil, o grupo da terceira idade ainda é visto como um peso para a sociedade, uma turma de segunda categoria.

    Por que isso ainda ocorre no país? O etarismo ou idadismo, termo cunhado nos anos 1960 pelo meu mentor nos estudos da longevidade, o americano Robert Butler, é um preconceito que contém a mesma carga negativa do racismo ou do machismo. O que observo é que os jovens brasileiros têm a ideia de que valem mais do que os velhos. Por isso, os tratam com certo desdém.

    O senhor chama a atenção em seus artigos para o atual fenômeno da “crise do cuidado”, em que idosos se veem desassistidos, sem familiares para prestar ajuda. Como resolver isso? Quando eu era jovem, minhas primas brigavam para ver quem passava a noite com um parente doente. Mas era um outro Brasil: as mulheres não haviam ingressado no mercado de trabalho. Hoje, ocupam todo tipo de cargo, e ainda se espera delas que sigam com a mesma responsabilidade, ainda que não tenham aquele tempo livre de antes. A sobrecarga é brutal e aí não há dúvida: a mentalidade dos homens precisa mudar. Por incrível que pareça, a antiga ideia de que cuidar é “coisa de mulher” resiste.

    As pessoas revelam ainda muito medo de envelhecer? Apesar de todo o avanço, observo, sim, um grande medo em relação à passagem do tempo. Acham que ficar velho é um mal. Eu mesmo, quando era diretor da Organização Mundial da Saúde, lutei contra a inclusão da terceira idade na classificação internacional de doenças. Consegui barrar o que representaria um retrocesso. Muita gente, porém, é incapaz de reconhecer a beleza desse período e tenta frear o processo a todo custo, de forma artificial.

    Como isso mais ocorre? Esse afã está embutido na crescente busca por procedimentos estéticos para rejuvenescer, muitas vezes prejudiciais. Virou uma epidemia. Quem quer fazer uma intervenção pontual para melhorar a autoestima e se sentir bem que vá em frente: é uma decisão de cada um. O problema são as engrenagens de uma indústria que quer vender a ilusão de que é possível deter o tempo, o que considero um charlatanismo. A busca frenética pela juventude eterna é fútil e reflete uma ansiedade social.

    As redes sociais contribuem para a obsessão de querer parar o tempo? O brasileiro já é hedonista e vive imerso em uma cultura voltada para o belo e o efêmero. As redes só fazem contribuir para isso. Uma turma de influenciadores vive de sedimentar a ideia de que a velhice é indesejável ao vender produtos que se dizem milagrosos para evitá-la a todo preço. Tudo isso acaba tendo o efeito de fazer as pessoas não aproveitarem o que o tempo presente pode trazer de bom, preocupadas que estão com rugas, colágeno e um padrão único de beleza.


(Por: Duda Monteiro de Barros. Revista VEJA, 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980. Fragmento.)
Comparando o emprego dos termos destacados a seguir e a produção de efeito de sentido de acordo com o contexto, pode- -se afirmar que o significado apresenta-se diferente apenas em:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-contextual: a questão exige comparar o sentido do vocábulo destacado no texto-base com o da frase de apoio e identificar o único caso em que há mudança de valor. Em “Como pesquisador da prestigiada Universidade de Oxford, [...]”, “prestigiada” significa ‘de grande prestígio’, ‘renomada’; já na alternativa C, indica reconhecimento ou valorização recebida pela funcionária em uma situação específica. Por isso, apenas C apresenta sentido diferente.

Tema central: sentido contextual de vocábulos
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque “desdém” mantém o mesmo sentido nos dois contextos: desprezo, menosprezo, atitude de superioridade desconsideradora. No texto, os velhos são tratados com desdém; na frase comparativa, os empregados também. Muda o alvo do sentimento, não o significado da palavra.
B
Errada
Está errada porque “gerontólogo” conserva o mesmo valor semântico nos dois usos: especialista em envelhecimento/velhice. A menção à senescência na frase comparativa apenas especifica o campo de estudo, sem alterar o núcleo de sentido do termo.
C
Certa
A alternativa C é a correta porque há mudança de valor semântico do termo destacado. No texto-base, “prestigiada” qualifica a Universidade de Oxford como instituição de alta reputação, reconhecida e renomada. Na frase comparativa, “prestigiada” indica o fato de a funcionária ter se sentido valorizada ou homenageada por um gesto do chefe. O mesmo adjetivo aparece nos dois enunciados, mas com efeitos de sentido diferentes: no texto, reputação institucional; na frase, reconhecimento pessoal circunstancial.
D
Errada
Está errada porque “longevidade” tem o mesmo significado nos dois enunciados: longa duração da vida. No texto, aparece em “estudos da longevidade”; na frase comparativa, em “longevidade humana”. Há mudança de construção, não de sentido.
E
Errada
Está errada porque “próspera” também preserva o mesmo sentido nos dois contextos: desenvolvida, favorecida em termos de progresso. No texto, a palavra integra a ideia de que o Brasil envelheceu antes de alcançar esse estágio; na frase comparativa, esse mesmo sentido é associado a altos índices de desenvolvimento humano.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre contexto diferente e significado diferente. Em A, B, D e E, o referente ou a formulação mudam, mas o valor semântico do termo permanece. Em C, a mudança é real: de renome institucional para reconhecimento pessoal.
Dica para questões semelhantes
  • Compare o sentido da palavra dentro de cada contexto, e não a palavra isoladamente.
  • Não confunda mudança de referente com mudança de significado.
  • Observe se o termo qualifica uma característica estável ou um efeito pontual da situação.
  • Se os sentidos forem apenas próximos, verifique se a função semântica é a mesma nos dois enunciados.

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Comentários

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é cada pergunta que meu deus

chute de três dedos finalizado com sucesso

Notei que a alternativa C faz referência, primeiro, à universidade e, depois, à funcionária.

O termo prestigiada* Seria mesmo este o bizu da questão?

GABARITO C

“pesquisador da prestigiada Universidade de Oxford” = prestigiada: renomada, respeitada, de grande prestígio (sentido de reputação / qualidade reconhecida)

Na opção C “A funcionária se sentiu prestigiada quando o chefe a cumprimentou...” = prestigiada: honrada, valorizada, lisonjeada (sentido de sentimento pessoal de valorização)

A palavra muda... de adjetivo que qualifica uma instituição (prestígio = fama positiva) para verbo/particípio que indica um estado emocional (sentir-se prestigiada = sentir-se honrada)

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