Eu completava 11 anos esquecida bem no meio de
janeiro – o que quer dizer que talvez eu faça doze anos
enquanto escrevo esse livro [01] –, ajudando minha
mãe na loja de velhos. Gosto de chamar de Loja de
Velhos porque parece que vendemos velhos.
Com o tempo, comecei a acreditar que isso é verdade,
porque os velhinhos precisam de uma porção de
coisas que já fazem parte do nosso corpo, e parece
que, peça por peça, estamos vendendo velhinhos
inteiros. As pessoas vão lá e pedem coisas que eu nem
imaginava que alguém poderia precisar, e eu vou
procurar lá em cima, em caixas com etiquetas mais ou
menos em ordem alfabética. Às vezes volto para
confirmar, peço para soletrarem, e acontece de
simplesmente não ter, e minha mãe fica com um
pouco de raiva do cliente, como se fosse culpa dele
que um parente precisasse de uma coisa tão absurda.
Meu aniversário caiu na terceira segunda-feira do ano.
Eu li na internet que esse é o dia mais triste do ano.
Todos sérios nas ruas lamentando o calor, a semana,
o ano que começa, já sem qualquer esperança de
Natal, ou promessa de ano-novo, e ainda longe do
carnaval.
Minha mãe passou o dia sentada na frente do
ventilador, abrindo e fechando um livro que eu
emprestei e ela adiava desde o ano anterior, e
mexendo num cacho do cabelo da frente que ela gosta
de enfiar por dentro do brinco gigante de argola.
Quase nenhum cliente veio, e os poucos que
apareceram buscaram coisas que não tínhamos, ou
não gostaram da minha explicação sobre o andador
dobrável – nosso funcionário sempre tira férias em
janeiro, já que eu posso ficar pra ajudar.
CARRARA, Mariana Salomão. Se deus me chamar não vou. 2ª ed. São Paulo: Editora Nós,
2024
No trecho “Quase nenhum cliente veio”, a
concordância verbal está correta porque: