Considere as passagens do texto. •  ... ocasiões sempre apr...

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Q3223251 Português
Cinema antigo


Os pequenos prazeres da vida, curtidos quase secretamente, exigem certo refinamento não ao alcance de qualquer um. Requerem uma habilidade especial, igual à dos pássaros ao sugar o néctar das menores flores. Já os grandes prazeres pedem cenário, câmaras e razoável plateia. A felicidade dos artistas de televisão, por exemplo, é uma coisa pública, para ser compartilhada, fotografada, invejada. Quanta alegria eles demonstram ao exibir sua mansão, seus carros ou quando são flagrados fazendo compras em Paris ou Nova York, ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes!

Há prazeres de todos os tamanhos, como os domésticos, inocentes. O meu favorito parece obra de maníaco. Conforta- -me, porém, não ser o único desse clube. Aí, entra minha mulher, Ismênia, e diz a vocês:

– Ele é maluco por filmes antigos. Aqueles do Humphrey Bogart, vocês sabem.

Sim, filmes de preferência em preto e branco. Feitos antes das cores e dos chatíssimos efeitos especiais, tão ao alcance de qualquer diretor sem talento. Não há nada mais delicioso que ver um policial noir1 , numa noite de sexta-feira, tomando uma dose de uísque e mordiscando salgadinhos.

Alguns são velhos conhecidos. Como “Os Assassinos”, baseado em Hemingway2 , primeira versão de 1946, com Burt Lancaster e Ava Gardner. Outros nem tanto, aí procuro descobrir em que ano foram produzidos. Há várias pistas: as roupas que os atores usam, a marca e o modelo dos carros, o estilo dos móveis e as referências históricas. Concentro-me em todos os detalhes. Às vezes peço socorro a Ismênia se a chave do enigma está no penteado ou no vestido.

– Ah, eu já sei esse. Esteve na moda por volta de 1960.

Adoro filmes, como “Falcão Maltês” ou “Pacto Sinistro”, que são adaptações de romances marcantes. Algo todos tinham em comum, além do roteiro primoroso, a fumaça. Os atores e atrizes fumavam desbragadamente; era preciso assoprar para apreciar certas cenas. Outro item, a beleza estonteante das Ava, Rita, Marlene3 . Enchiam a tela.

Não haveria lugar para os Stallone, com seus equipamentos mortíferos. No lugar de armas de grande poder de fogo, imperavam os lances de inteligência, demolidoras frases de espírito ou certeiros socos no queixo. Tudo elegante, sofisticado, chiquérrimo. Os próprios fora da lei usavam smoking, e rolava uma trilha sonora de Cole Porter ou Gershwin. Então o bom ficava ainda melhor.

– Você vai assistir a esse filme de novo? – pergunta minha mulher.

– Sim, querida.

– Se assistir, vou para um hotel.

Não suporto mais. Não me preocupo; ela só cumpriu a ameaça umas cinco vezes.


(Marcos Rey. Coleção melhores crônicas: Marcos Rey. Seleção de Anna Maria Martins. Global editora. Adaptado)

1. policial noir: romances e filmes baseados em histórias de investigação e suspense.
2. Ernest Hemingway (1899-1961): escritor norte-americano.
3. Ava, Rita, Marlene: Ava Gardner, Rita Hayworth, Marlene Dietrich.
Considere as passagens do texto.

•  ... ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes! (1o parágrafo)
•  ... era preciso assoprar para apreciar certas cenas. (7o parágrafo)
•  Então o bom ficava ainda melhor. (8o parágrafo)

Nas passagens indicadas, é correto afirmar que o autor expressa suas ideias, respectivamente, por meio de:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão avalia a interpretação de texto, especificamente a identificação das figuras de linguagem (ironia, hipérbole/exagero e conclusão) em frases extraídas da crônica.

Análise das passagens:

1) “... ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes!”
Neste trecho, o termo “declarações inteligentes” é empregado de modo irônico; o autor critica, de forma sutil e humorística, a superficialidade do que é dito pelos artistas, sugerindo o oposto do literal. Segundo Evanildo Bechara, a ironia ocorre quando se afirma algo querendo, na verdade, negar ou debochar.

2) “... era preciso assoprar para apreciar certas cenas.”
Aqui, a quantidade de fumaça nos filmes antigos é exagerada dramaticamente pelo autor – jamais seria realmente necessário assoprar a tela! Trata-se de hipérbole, ou exagero intencional para efeito expressivo, conforme ensinam Celso Cunha & Lindley Cintra (técnica comum para enfatizar uma ideia).

3) “Então o bom ficava ainda melhor.”
Neste caso, a frase conclui o raciocínio anterior, sintetizando que os elementos clássicos do filme aprimoravam ainda mais a experiência. A utilização do conector “então” é marcador típico de conclusão (Manual de Redação da Presidência da República: conectivos conclusivos encerram ideias).

Justificativa da Alternativa correta (E):

“E) ironia; exagero; conclusão.”
Cada uma das figuras de linguagem foi corretamente relacionada a seu trecho: ironia (1º), exagero (2º), conclusão (3º).

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Não há reiteração (repetição) no 1º trecho nem contestação no último.
  • B) Não há ênfase no 2º trecho – há hipérbole/exagero – e o 1º não é reiteração.
  • C) Não há duplo sentido nem comparação, e o último trecho não é suposição.
  • D) Não existe comparação (“como”, “tal qual”) nas passagens.

Estratégia para provas:
Identifique sempre conotações ocultas, termos marcados por subjetividade ou ironia, e procure por elementos de exagero (hipérbole) ou aqueles que finalizam o pensamento (conclusão). Atenção aos elogios ou críticas disfarçadas de elogio – típico caso de ironia.

Resumo: A alternativa E é correta porque identifica as figuras de linguagem adequadamente segundo a norma-padrão e referências de gramática clássica.

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Comentários

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• ... ocasiões sempre aproveitadas para dar aquelas declarações inteligentes! (1o parágrafo) - Ironia

• ... era preciso assoprar para apreciar certas cenas. (7o parágrafo) - Exagero

Então o bom ficava ainda melhor. (8o parágrafo) - conclusão

Gab.: E

The trooper again ​

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