O texto apresentado possui uma nítida intertextualidade como...
Um novo José
Josias de Souza.
Calma, José.
A festa não começou,
a luz não acendeu,
a noite não esquentou,
O Malan* não amoleceu.
Mas se voltar a pergunta:
e agora, José?
Diga: ora Drummond,
agora Camdessus*.
Continua sem mulher,
continua sem discurso,
continua sem carinho,
ainda não pode beber,
ainda não pode fumar,
cuspir ainda não pode,
a noite ainda é fria,
o dia ainda não veio,
o riso ainda não veio,
não veio ainda a utopia,
o Malan tem miopia,
mas nem tudo acabou,
nem tudo fugiu,
nem tudo mofou.
Se voltar a pergunta,
E agora, José?
Diga: ora Drummond,
Agora FMI.
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
O Malan nada faria,
mas já há quem faça.
Ainda só, no escuro,
qual bicho do mato,
ainda sem teogonia,
ainda sem parede nua,
pra se encostar,
ainda sem cavalo preto,
Que fuja a galope,
você ainda marcha José!
Se voltar a pergunta:
José para onde?
Diga: ora Drummond,
por que tanta dúvida?
Elementar, elementar,
Sigo pra Washington
e, por favor, poeta,
não me chame de José.
Me chame Joseph.
(Folha de São Paulo, Caderno 1, p.2.04/10/1999.)
*Malan foi Ministro da Fazenda de 1 de janeiro de 1995 até 1 de janeiro de 2003.
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Tema central da questão: Interpretação de texto e intertextualidade
A questão explora a habilidade de interpretar textos poéticos contemporâneos e reconhecer a intertextualidade, ou seja, o diálogo entre um texto novo e um texto consagrado da literatura brasileira, no caso, o poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade.
Por que a alternativa A é a correta?
O texto “Um novo José” de Josias de Souza faz referência direta ao poema de Drummond, mas insere elementos político-econômicos do contexto moderno (referências ao FMI, Malan, Washington), explorando angústias contemporâneas. O autor utiliza linguagem poética para expressar, de forma implícita, uma crítica social – não há uma crítica direta; ela se constrói de maneira velada, possibilitando diferentes leituras pelo leitor atento. Tal estratégia é classificada na gramática normativa como expressão “implícita de ponto de vista”. Segundo Evanildo Bechara, “a linguagem literária muitas vezes recorre à sugestão e ao subentendido, exigindo leitura inferencial” (Moderna Gramática Portuguesa).
Análise das alternativas incorretas:
B) Fala em “narrativa baseada em elementos reais e fantásticos”; porém, não há elementos fantásticos, e sim releitura crítica da realidade a partir do modelo poético original. O texto se ancora fortemente na realidade política e não na ficção/fantástico.
C) Afirma uso de linguagem informal e variedade regional. O texto, todavia, imita o estilo formal e universalista de Drummond, sem marcas regionais ou coloquiais.
D) Afirma que o objetivo seria estabelecer “parâmetros” formais entre Drummond e a poesia contemporânea. Tal comparação não é realizada explicitamente; a intenção maior é usar a estrutura do poema original para criar uma crítica implícita ao contexto atual.
Dica de estratégia: Em questões de interpretação, observe sempre como o texto se posiciona em relação ao outro – há, aqui, apropriação crítica e não apenas recontagem ou citação. Busque os implícitos no texto e relacione-os ao contexto apresentado.
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Comentários
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A linguagem exerce função poética quando valoriza o texto na sua elaboração, ou seja, quando o autor faz uso de combinação de palavras, figuras de linguagem (metáfora, antítese, hipérbole, aliteração, etc.), exploração dos sentidos e sentimentos, expressão do chamado eu-lírico, dentre outros.
Assim, é mais comum em textos literários, especialmente nos poemas que enfatizam com mais frequência a subjetividade. No entanto, podemos encontrar esse tipo de função nos anúncios publicitários e na prosa, bem como aliada aos demais tipos de função, como a emotiva.
Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/redacao/funcao-poetica-linguagem.htm
O QUE ENTENDI:
a) expressa seu ponto de vista de forma implícita (OCULTA) por meio da linguagem poética. CERTO
POR LER AS REFERÊNCIAS, IMAGINEI QUE "A CASA CAIU" E UM DELES ESTAVA ACALMANDO O OUTRO
b) apropria-se do texto drummondiano para recriar uma narrativa baseada em elementos reais e fantásticos. ERRADO
NÃO VI NARRATIVA
c) utiliza expressões próprias da linguagem informal e variedade regional para caracterizar o enunciador do texto. ERRADO
AS EXPRESSÕES SÃO drummondiana
d) tem como principal objetivo estabelecer parâmetros da linguagem poética drummondiana com a poesia contemporânea. ERRADO
FIQUEI COM DÚVIDA, MAS PELA LEITURA VI QUE PARECIA SER UM CÓDIGO DE COMUNICAÇÃO ENTRE ELES, E NÃO UMA RELAÇÃO DE IGUALDADE (PARÂMETROS), DAÍ POR PARECER "UM CÓDIGO" LEMBREI QUE NA LETRA "A" FALA EM " forma implícita" POR ISSO MARQUEI A LETRA "A"
CASO ESTEJA ERRADO, PODEM CORRIGIR, INCLUSIVE A GRAFIA KKKK...
A: A intertextualidade além da citação do texto de Drummond se faz presente com a referência a políticos citados ao final da poesia. E observando que trata-se de um texto publicado na Folha de São Paulo, infere-se que o autor faz uma crítica de forma implícita a época política vivida.
B: o gênero textual mantém-se poesia ao invés de narrativa.
C: não há presença de expressões próprias de linguagem formal.
D: objetivo do autor não foi estabelecer parâmetro de linguagem poética a Drummond, mas sim, criticar a conduta política econômica da época, de forma implícita.
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