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Q3914353 Português
Leia o texto a seguir e responda à questão.

Do Saara à Cracolândia

A pedagogia de emergência preocupa-se com o sentir, pensar e querer de cada criança que vive em região de guerra, de catástrofe natural ou violência – este último tão naturalizado no Brasil. Com práticas pedagógicas e terapêuticas inspiradas nos princípios de Rudolf Steiner, filósofo e criador da pedagogia Waldorf, as intervenções ocorrem desde 2006 pelo mundo, como Faixa de Gaza, Iraque, Haiti, Quênia e Eslovênia. Em 2012, essa pedagogia chega ao Brasil para quatro anos depois se formalizar como uma associação. Ao todo, mais de 50 mil crianças já foram beneficiadas.

Engajado em desenvolver seres humanos melhores, Steiner lançou suas ideias na Europa logo após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, período de medo e reconstrução social. Expressões artísticas que eliminam a rigidez e dão espaço para a leveza, criatividade, respiração e possibilitam aos pequenos colocarem a mão na massa (dança, argila e aquarela, por exemplo) foram defendidas pelo filósofo e adotadas nas intervenções da pedagogia de emergência.

“O trauma pega muito o físico, pode deixar paralisado. No segundo momento, abala o ritmo: não come, dificuldade de concentração, atinge aparelho digestivo e a criança volta a fazer xixi na cama. Terceira característica afeta a relação, interação. Trauma também pode trazer flash back. E tem a questão da identidade, do nosso eu, em que não sou mais capaz de lidar com a minha própria vida”, detalha Reinaldo Nascimento, cofundador da Associação de Pedagogia de Emergência Brasil e coordenador pedagógico do movimento internacional. Ele é também terapeuta social, psicopedagogo e educador físico.

Após uma catástrofe, o objetivo dos membros é chegar o mais rápido possível ao local, para que tais sintomas relatados sejam passageiros e não se desenvolvam para uma doença. Nascimento exemplifica que ninguém fica doente por um terremoto. São fases. “Quando vou ao Iraque sei por que a guerra começou e quando. Na Rocinha, no Rio, ou no Jardim Ângela, bairro de São Paulo em que nasci, não.” Na visão do terapeuta social, a violência que ocorre nas periferias brasileiras é precursora de traumas crônicos e o desafio é ajudar as crianças a saírem de um ciclo que acham ser normal.

O trabalho é feito com as crianças, mas há formação para os educadores locais, principalmente sobre o que é o trauma e como lidar com cada uma das fases. É comum também roda de conversas com as famílias. Para cada intervenção há cerca de 15 pessoas, dentre pedagogos, educadores, terapeutas e médicos, a depender da realidade.

Gabriela Winter faz parte da ONG Palhaços sem Fronteiras Brasil e também integra o time dos Estados Unidos. “Nosso lance é levar riso como ferramenta de regeneração”, diz. Presente em 15 países, a primeira expedição do Palhaços sem Fronteiras ocorreu em 1993, em um campo de refugiados na Croácia, período da Guerra da Bósnia. Já o Palhaços sem Fronteiras Brasil é o único presente na América Latina e foi fundado em 2016 por Aline Moreno, que é também diretora executiva. “Já fiz 15 projetos presenciais, do Saara à Cracolândia”, resume.

Outro ponto forte de transformação que Moreno reforça é com os espaços públicos. Segundo ela, é comum o local do tiroteio se tornar disseminador de ódio e estar atrelado a um trauma. “Se a gente ressignifica, faz um espetáculo ali, as pessoas olham de outra maneira.”

(Adaptado de: RACHID, Laura. Do Saara à Cracolândia. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2022.)
Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, a frase que pode ser comprovada pelo texto.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O comando pede a frase que pode ser comprovada pelo texto; assim, o critério é a aderência semântica ao que foi explicitamente dito. O trecho decisivo é “Nosso lance é levar riso como ferramenta de regeneração”, que autoriza a alternativa cuja ideia vincula o riso ao enfrentamento de ódio e terror.

Tema central: riso contra o trauma
Análise das alternativas
A
Errada
O texto menciona guerra e um “período de medo e reconstrução social”, mas não afirma nem demonstra que o medo faz as guerras nascerem. Aqui há extrapolação causal: o medo aparece como circunstância histórica, não como causa da guerra.
B
Errada
A frase traz um juízo existencial geral sobre a vida. O texto, porém, trata especificamente de trauma, violência e ações de cuidado; não formula a tese de que viver seja duro e fascinante. Trata-se de generalização filosófica sem comprovação textual.
C
Certa
A alternativa C é a única sustentada pelo texto por compatibilidade semântica direta. O texto afirma expressamente que a ONG leva “riso como ferramenta de regeneração” e mostra que a intervenção artística ressignifica espaços associados a tiroteio, ódio e trauma. Assim, a ideia de que o riso atua contra ódio e terror é efetivamente autorizada pelo conteúdo textual. O fato de a palavra “lágrimas” não aparecer não invalida a alternativa, porque o ponto comprovável está no papel regenerador do riso em cenários de violência e terror.
D
Errada
O texto não aborda amor como tema central, nem contrapõe visão pelos olhos e pelo coração. Associar a atuação humanitária a amor ao próximo seria leitura externa ao texto, sem suporte explícito ou inferência direta autorizada.
E
Errada
Embora o texto apresente iniciativas de regeneração em contextos traumáticos, ele não sustenta a máxima geral de que a vida não é triste, apenas tem horas tristes. A alternativa transforma um tema de superação localizada em afirmação universal sobre a vida, o que o texto não faz.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre afinidade temática e comprovação textual: várias frases são humanistas e combinam com o assunto, mas só a alternativa C tem apoio semântico direto nos trechos que atribuem ao riso função regeneradora e de ressignificação diante do ódio e do trauma.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando pedir o que pode ser comprovado, procure a alternativa que possa ser ligada a um trecho expresso do texto, e não apenas ao tema geral.
  • Aceite paráfrase semântica quando a ideia central da alternativa coincide com o que o texto afirma, mesmo sem repetição literal.
  • Elimine máximas filosóficas amplas quando o texto trabalha um recorte específico e não universaliza aquela conclusão.

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