[…] Um dia fomos almoçar num restaurante. E fiquei
observando como as pessoas sempre olhavam para ela. Era
como se sua cor retinta, os cabelos crespos e o corpo acima do
peso fizessem dela sempre uma intrusa. Uma indesejada. […]
Olhei para minha própria pele. E era mais clara que a de meu pai
e minha mãe. E talvez por isso eu tivesse sido parado pela
polícia duas vezes até ali. E fiquei pensando na crueldade de
tudo aquilo. E tive vontade de chorar e já não sabia qual era o
real motivo, se era por causa de sua morte, se era pelos olhares
daquelas pessoas para minha tia, se era pela descoberta de que
as mulheres mais pretas tinham de lidar com outras situações.
[…] Minha tia Luara pediu o cardápio e, enquanto esperávamos a
comida, eu perguntei como ela suportava tudo aquilo. Tudo o
quê?, ela perguntou. Tudo isso, de ser sempre julgada pela cor
da pele. Minha tia me olhou com tristeza e disse que a gente se
acostuma. A gente se acostuma com tudo. A gente se acostuma
quando você caminha na rua e as pessoas recolhem as bolsas e
mochilas, a gente se acostuma quando os próprios homens
preferem as negras mais claras, a gente se acostuma a ser só. A
gente se acostuma a chegar numa entrevista de emprego e fingir
que não percebeu a cara desapontada do entrevistador. Mas não
estou reclamando, porque com o passar dos anos eu aprendi a
me defender bem. Aprendi a inventar estratégias de
sobrevivência. […]
TENÓRIO, Jeferson. O avesso da pele. São Paulo, Cia das Letras, 2020. (Fragmento).
A forma verbal indicativa de discurso direto: “disse” tem como
resposta ao interlocutor:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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