O pai ganha os presentes que um pai costuma
ganhar. Camisas, lenços, uma gravata muito
parecida com a que deu para alguém no ano
passado, meias. Alguns livros, alguns vinhos.
Mas fica de olho nos presentes das crianças. Com
o ar condescendente de quem tem um saudável
interesse nas atividades dos filhos. Mas louco de
inveja.
― Meu filho. Um Autorama!
― É, pai.
― Vamos armar agora mesmo!
― Agora não, pai. Amanhã, a gente arma.
― Amanhã, nada. Agora! Arreda essa papelada
pra lá. Aqui na sala mesmo tem lugar.
A mãe intervém.
― Você está louco? Armar esse negócio no meio
da sala, no meio da festa?! E as crianças precisam
ir dormir. Foi excitação demais para um dia só.
O pai fica olhando com ressentimento o
Autorama que desaparece da sala embaixo do
braço do guri. Pensa, vagamente, em seguir o
filho e propor uma barganha. “Escuta, a mãe não
está nos ouvindo. Eu te dou todos os meus lenços
e tu deixa eu armar o Autorama aqui no teu
quarto, com a porta fechada.” Mas não. Os
convidados, o que pensariam dele? Na certa que
estaria bêbado, como no ano passado. Ele
examina o livro que ganhou do cunhado. O
Mundo Restaurado, de Henry Kissinger. O
cunhado, inexplicavelmente, lhe atribui um
grave interesse nos problemas contemporâneos.
Vive lhe mandando recortes de jornal com
trechos sublinhados e pontos de exclamação na
margem. Às vezes, telefona, com recados
cifrados.
― Lembra aquela nossa conversa?
― Qual?
― Veja na terceira página do Correio de hoje.
Um pequeno tópico no canto inferior direito. É a prova de tudo aquilo que nós discutíamos no
outro dia, lembra?
― Não.
― A crise é irreversível, meu filho. Um abração.
Ele só ganha presente de homem sério. De
homem preocupado com os problemas
contemporâneos. Lenços brancos, camisas
sóbrias, meias pretas e marrons. No ano passado,
deu para um primo taciturno uma gravata cinza
escura com manchas pretas e estrias roxas, como
hematomas. Com um cartão gozando a seriedade
do primo. Este ano recebeu de volta a mesma
gravata. Sem cartão. As pessoas, pensa, me
confundem com um adulto. Vê a filha mais velha
que passa equilibrando várias caixas de
presentes.
― Te desafio para uma partida de damas. Não é
uma proposta carinhosa. É um desafio mesmo.
Posso derrotar qualquer criança nesta sala!
Dama, moinho, bola de gude, palavra-cruzada…
A filha o ignora e também vai para o quarto.
Decidiram, ele e a mulher, não dar nenhuma
arma de brinquedo no Natal. Nem arco e flecha.
Os psicólogos não aconselham. Mas ele agora
tem uma lembrança que lhe sobe até a garganta e
fica atravessada: aos doze anos ganhou uma
metralhadora de latão que cuspia fogo. Tinha
uma manivela do lado que a gente girava e a
metralhadora cuspia fogo! O cunhado senta ao
seu lado, com um copo de uísque na mão. Aponta
para o livro.
― Isso aí explica muita coisa. Lembras daquela
minha tese?…
Mas ele não ouve mais nada. Ergue o Henry
Kissinger até os olhos, como se mirasse uma
metralhadora, e começa a girar uma manivela
invisível do lado do livro. Ao mesmo tempo, com
a boca imita o ruído de tiros, e descobre
entusiasmado que ainda não perdeu o jeito. O
cunhado fica olhando, entre surpreso e divertido,
enquanto ele varre a sala com rajadas
imaginárias.
Luís Fernando Veríssimo.Ed Mort – todas as
histórias.1ª Ed. São Paulo: Objetiva, 2011
Considere o seguinte excerto: “Foi excitação
demais para um dia só.” Em relação à classe
gramatical, as palavras “excitação”, “demais”,
“para” e “só” são, respectivamente:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Errou um tema comum da banca? Veja o que mais costuma cair no Raio-X. Ver raio-X
teste
Parabéns! Você acertou!
Essa questão segue o padrão da banca! Veja o que mais costuma cair. Ver raio-X