Em relação aos verbos, os pronomes átonos podem situar-se em...
TEXTO 2
A ESCRITA NÃO É "A LÍNGUA"
Por Marcos Bagno*
UMA LONGUÍSSIMA tradição de vinte e cinco séculos se impregnou de tal modo na cultura ocidental que a jovem ciência linguística, que conta pouco mais de 150 anos, ainda peleja para fazer valer seus postulados, muito mais lógicos e racionais. É a ideia (ou, melhor, a ideologia) de que “a língua” é uma entidade muito restrita, acessível a poucos iluminados, aqueles grandes escritores (todos homens, é claro) que se tornaram os “clássicos do idioma”. Não é à toa que o português é chamado de “a língua de Camões”, o espanhol de “a língua de Cervantes”, o italiano de “a língua de Dante”, o inglês de “a língua de Shakespeare” e por aí vai. A escrita literária, desde o surgimento dos estudos gramaticais no mundo de língua grega, trezentos anos antes de Cristo, tem sido vítima dessa apropriação ideológica. Qual é o problema? O grande escritor não é grande porque respeita mais ou desobedece menos as regras da gramática tradicional. O grande escritor é aquele que vai além do normal e do normativo, que tenta dar vazão à sua sensibilidade, exprimir de modo novo e surpreendente o que a realidade lhe comunica. É preciso libertar a língua usada pela imensa maioria das pessoas do peso insuportável de ser comparada aos usos feitos pelos grandes escritores. As pessoas não podem até hoje ser oprimidas e reprimidas pela culpa absurda de não falar tal como Machado de Assis escreveu seus romances no final do século 19!
A escrita literária é só uma parcela microscópica de todos os múltiplos e variados usos possíveis da língua. Ela não serve para a descrição gramatical da língua, de como ela funciona, das regras em vigor. Para a ciência linguística, a língua é, primordialmente, aquilo que as pessoas falam no dia a dia, em suas interações normais, espontâneas, na construção de sua identidade pessoal e da identidade de sua comunidade. Por isso é que não se pode dizer que em Brasil e Portugal “se fala a mesma língua”. Não, não se fala: brasileiros e portugueses seguem regras totalmente diversas na hora de falar, têm coisas que só existem lá e não existem aqui e vice-versa. Quando falamos, contribuímos para a construção única e exclusivamente da nossa identidade social e cultural. É maravilhoso podermos ler a produção literária portuguesa, mas isso não significa que se trate “de uma mesma língua”. Basta ler os textos em voz alta para se dar conta disso!
Durante mil anos, na Europa, a única língua de cultura foi o latim clássico: os letrados (só homens, é claro!) já falavam suas línguas maternas na vida diária, mas elas não eram consideradas dignas de estudo, de ensino e de aparecer na escrita respeitada. Foi preciso esperar o Renascimento para que isso acontecesse. Pois é assim que nos encontramos hoje no Brasil, numa Idade Média linguística: falamos o português brasileiro, uma língua viva, dinâmica, com gramática própria, mas ainda nos cobram o ensino e o uso de um “latim clássico”, que é o português literário consagrado antigo. E dá-lhe ensinar conjugação verbal com “vós”, regências verbais que não significam nada para nós, usos de pronomes que não correspondem ao que a gente realmente sente e quer expressar. Já passou da hora da nossa língua (e não “de a nossa língua”, por favor!) ocupar de direito o lugar que já ocupa de fato: o de língua materna de mais de 200 milhões de pessoas, uma das mais faladas do mundo, num País com crescente importância geopolítica e econômica mundial. “E deixe os portugais morrerem à míngua!”.
*Marcos Bagno é linguista, escritor e professor da UNB.
Ref.: http://www.carosamigos.com.br/index.php/revista/204-edicao-226/5859- falar-brasileiro-a-escrita-nao-e-a-lingua-2
Considere o texto Escrita não é “a língua” para responder as questões de 06 a 11.
Em relação aos verbos, os pronomes átonos podem situar-se em três posições: próclise, mesóclise e ênclise. Nas frases abaixo, estão sendo utilizados, respectivamente, como:
I. E dá-lhe ensinar conjugação verbal com “vós”
II. o que a realidade lhe comunica
Gabarito comentado
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Gabarito: Alternativa A – Ênclise e próclise
Tema central: A questão aborda colocação pronominal, ou seja, a posição do pronome oblíquo átono (“lhe”) em relação ao verbo: próclise (antes do verbo), ênclise (após o verbo) e mesóclise (no meio do verbo).
Entendendo as regras: Segundo a gramática normativa (Evanildo Bechara, Celso Cunha & Lindley Cintra), as formas principais são:
- Ênclise: Pronome depois do verbo – ocorre normalmente quando o verbo inicia a oração, exemplo: “Fale-me a verdade.”
- Próclise: Pronome antes do verbo – ocorre quando há palavras atrativas antes do verbo, como pronomes relativos, advérbios, conjunções subordinativas e palavras negativas. Exemplo: “O que me disse.”
- Mesóclise: Pronome no meio do verbo – usada em registros muito formais ou em futuro do presente, ex: “Dir-me-ão.”
Análise das frases:
I. “E dá-lhe ensinar conjugação verbal com ‘vós’.”
No trecho, “dá-lhe” apresenta o verbo seguido pelo pronome “lhe”: trata-se de ênclise. Essa ordem é possível porque a expressão é uma locução idiomática e porque não há fator atrativo antes do verbo.
II. “o que a realidade lhe comunica.”
Aqui, o verbo “comunica” vem depois do pronome relativo “que” – palavra que exige próclise, ou seja, o pronome “lhe” deve aparecer antes do verbo: próclise.
Estratégia de prova e pegadinha: Muitos candidatos erram ao analisar mecanicamente a posição do pronome sem observar a palavra atrativa (“que”). A presença de pronomes relativos normalmente força próclise pela regra da norma culta.
Por que as outras alternativas estão erradas?
- B, C e D: Trocam a ordem de ênclise e próclise, desconsiderando o contexto sintático e a regra de atração exercida pelo pronome relativo.
Resumidamente, como ensina Bechara (Moderna Gramática Portuguesa): “O pronome oblíquo átono virá antes do verbo (próclise) sempre que houver palavra que o atraia; do contrário, usa-se a ênclise.”
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