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Q4420711 Português

Leia o poema a seguir para responder a questão.


Aviso aos náufragos


Esta página, por exemplo,  

não nasceu para ser lida.

Nasceu para ser pálida,

um mero plágio da Ilíada,

alguma coisa que cala,

folha que volta pro galho,

muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,

quem sabe Andrômeda, Antártida,

Himalaia, sílaba sentida,

nasceu para ser última 

a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe

pelas águas do Nilo,

um dia, esta página, papiro,

vai ter que ser traduzida, para o símbolo, para o sânscrito,

para todos os dialetos da Índia,

vai ter que dizer bom-dia

ao que só se diz ao pé do ouvido,

vai ter que ser a brusca pedra 

onde alguém deixou cair o vidro.

Não é assim que é a vida? 


Leminski, Paulo. Toda Poesia. Companhia das Letras, 2013, p. 117. 

O eu-lírico: 
Alternativas