A formiga, descrita no primeiro parágrafo do texto, é utili...

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Q3734102 Português
TEXTO PARA A QUESTÃO.

Enquanto vai, passeia

    Menos. Quero ir cada vez menos. Mais devagar. Mais lenta. Abrindo espaço para desacelerar. Não é fácil, sabemos. Ir menos para ir lentamente escorregando pelos dias que ainda restam até o fim do ano. Estou, estamos cansados e acelerados demais. Por que corremos tanto assim? Para quê? Faço um mate e me sento no jardim. Um mate solitário e ensolarado entre os gatos e as centáureas azuis. Tento ampliar os minutos. Espichar o tempo. Uma formiga cruza a calçada. Ela e suas seis patas que tocam o chão muito mais do que eu e meus dois pés. Mas ela não se angustia com minha presença. Continua a andar no seu ritmo. Vai sentindo a textura das pedras. Enquanto vai, passeia. Anda para lá, para cá, volta, reinicia o percurso. Confesso que invejo a formiga. Gostaria, como ela, de andar calmamente sobre os dias. Ir menos. Ir assim, diminuindo o passo e sentindo a textura da vida.
    É quase fim de ano e as vitrines das lojas estão tomadas de referência sobre o Natal. Desde agosto, algumas. Era dia dos pais, o dia das crianças estava longe e já tinha coisas de Natal no comércio. Deus me livre desta ânsia que chega a dar tonturas. Antecipar o tempo é caminhar mais rápido para a morte. Corre-se tanto para chegar onde? A única certeza que temos é que o depois é o fim. Por isso, tento desacelerar. Talvez seja apenas uma tentativa, um tanto quanto ilusória, mas me permito a fantasia. É claro que não é fácil tentar fazer diferente e talvez o maior desafio seja este, o de compor com nosso próprio desafino.
    É preciso acalmar-se para sentir a anterioridade do acontecimento. A velocidade nos rouba o presente. A ansiedade é excesso de futuro. Quando desaceleramos nos damos conta do quanto o tempo tem passado rápido demais. Por isso, compor com o amargo dos dias, com as ansiedades que nos rasgam e fazem a vida arder, é uma tentativa de reconexão consigo mesmo. Aceitar que o azedume às vezes tinge nosso cotidiano fazendo com que nossa bílis negra reaja enfurecida pode ser resultado do quanto nos auto cobramos demais. E cobramos do outro. Nesta lógica capitalista de débito e crédito, antecipamos o que precisa envelhecer a seu tempo.
    Onde queremos chegar mesmo? Temos uma tendência a seguir por trajetos já conhecidos. Há sempre uma Cruzeiro do Sul que guia o caminho. Talvez pudéssemos nos permitir desnortear esta busca. Criar outros rumos, outras rotas. Acalmar-se diante do desconhecido sem antecipar o fim de nada. E ao invés de ir mais, ir menos.

Autora: Adriana Antunes – GZH (adaptado).
A formiga, descrita no primeiro parágrafo do texto, é utilizada pela autora como um símbolo dentro da narrativa reflexiva. Sobre o papel simbólico desse elemento, assinale a alternativa CORRETA. 
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de texto com ênfase no uso de símbolo/alegoria. O texto faz com que o candidato identifique qual ideia abstrata a formiga representa, analisando o contexto e o sentido figurado.

Estratégia para resolução: A chave aqui é não se ater ao sentido literal do termo “formiga”, mas compreender o significado simbólico atribuído pela autora no contexto das reflexões sobre ritmo e ansiedade.

Justificativa da alternativa correta (D): D) Simboliza a paciência e o ritmo natural que a autora deseja alcançar em contraposição à pressa humana. No texto, ao observar a formiga, a autora conclui: “Gostaria, como ela, de andar calmamente sobre os dias”, mostrando sua admiração pelo modo sereno e atento da formiga, oposto ao dos humanos modernos, que vivem correndo e ansiosos (“Estou, estamos cansados e acelerados demais”). Assim, o símbolo da formiga está associado à calma, paciência e vivência plena do tempo presente. Conceito este defendido por gramáticos como Celso Cunha, que aponta a importância do contexto para assegurar o sentido simbólico de palavras.

Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta. O texto não usa a formiga para expressar um caráter mecânico ou alienado. Pelo contrário: ela não apresenta angústia, se move de modo natural, explorando “o próprio ritmo”.

B) Incorreta. A formiga não reflete fragilidade nem medo; a autora sente inveja positiva de seu jeito tranquilo, e não identifica nela nenhum temor em relação ao tempo ou ao fim.

C) Incorreta. O foco não é o trabalho árduo da formiga. No texto, a ênfase está no ritmo, na calma, “sentindo a textura das pedras”, não no esforço ou labor constante.

Dica de interpretação: Em questões que tratam de símbolos ou alegorias, atente-se sempre à intenção do autor e à atmosfera criada em torno do elemento simbólico. Observe adjetivos, verbos e as sensações descritas para captar o sentido correto. Fique atento a alternativas que tentam transpor o sentido literal para o simbólico sem considerar o contexto – geralmente é aí que está a “pegadinha”.

Resumo da regra segundo Cunha & Cintra:O contexto muitas vezes determina o valor simbólico de um termo, fugindo do comum sentido literal.

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