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Q3908706 Português
Leia, a seguir, o trecho da crônica “O homem trocado”, de Luis Fernando Verissimo, e responda à questão .

Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
– O senhor não faz chamadas interurbanas?
– Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
– Por quê?
– Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
– O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
– Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
– Apendicite? - perguntou, hesitante.
– É. A operação era para tirar o apêndice.
– Não era para trocar de sexo?

(VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 28.)
Com base no trecho da crônica, considere as afirmativas a seguir.
I. Os castigos escolares foram, segundo o homem vítima de tantos enganos, determinantes para o insucesso no vestibular e para lhe vedar a entrada na universidade.
II. O diagnóstico médico do desengano revelou-se, afinal, ser mais um dos enganos, e a reação de “breve, louca alegria” justifica-se pelo sofrimento com o acúmulo de equívocos.
III. A experiência conjugal foi marcada pelas ações de desencontros, embora haja diferenças sutis nessas ações: na primeira, há um erro involuntário; na segunda, ela o trai.
IV. A hesitação da enfermeira, em sua penúltima fala, já denuncia mais um equívoco, e tanto a carga de humor quanto o grau do erro são intensificados com a pergunta final.
Assinale a alternativa correta.
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A questão se resolve pela distinção entre enumeração de infortúnios e causalidade textual efetiva: em "Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.", o próprio texto explicita que o não ingresso na universidade decorre do erro do computador, o que derruba a afirmativa I; assim, restam como sustentadas pelo trecho apenas II, III e IV.

Tema central: inferência textual
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque depende da afirmativa I, que cria uma relação causal não afirmada no texto. Em "Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.", os castigos escolares e o episódio do vestibular aparecem em sequência, mas a causa do não ingresso é expressamente o erro do computador. Além disso, a alternativa exclui III e IV, que são sustentadas pelo trecho.
B
Errada
Está errada pelo mesmo ponto decisivo: inclui a afirmativa I, incompatível com o texto, já que o episódio universitário é atribuído ao erro do computador, não aos castigos escolares. Embora IV seja correta, a presença de I invalida a alternativa.
C
Errada
Está errada porque exclui a afirmativa II, que é sustentada pelo trecho. Em "Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico.", o texto mostra claramente que o diagnóstico era mais um engano, e a reação do personagem não é gratuita: ela se lê no contexto de sucessivos equívocos narrados.
D
Errada
Está errada porque inclui a afirmativa I, que inventa causalidade entre castigos escolares e impedimento de ingresso na universidade, contrariando a causa explicitada no texto: "O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista." Também exclui IV, embora a hesitação da enfermeira e a pergunta final sustentem essa afirmativa.
E
Certa
A alternativa E está correta porque reúne exatamente as afirmativas autorizadas pela progressão narrativa. A II se sustenta em "Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.", trecho em que o suposto desengano médico vira mais um engano, e a reação paradoxal do personagem se explica pelo contexto acumulado de equívocos. A III se apoia em "Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes. – Por quê? – Ela me enganava.": "confundira" indica erro inicial involuntário, enquanto "enganava" traz ação posterior de enganar no casamento. A IV também é textual: em "– Apendicite? - perguntou, hesitante. – É. A operação era para tirar o apêndice. – Não era para trocar de sexo?", a hesitação da enfermeira já sinaliza novo erro, e a pergunta final amplia a gravidade do equívoco e fecha o humor da narrativa.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler fatos em sequência como se houvesse causa e efeito: a afirmativa I parece plausível porque acumula desgraças do personagem, mas o texto nomeia outra causa para o não ingresso na universidade. Também exige atenção à diferença semântica entre "confundira" e "enganava" e ao valor da palavra "hesitante" como pista do novo equívoco.
Dica para questões semelhantes
  • Separe fato narrado em sequência de causa realmente indicada pelo texto; se a causa estiver explicitada, não substitua por suposição.
  • Observe o valor semântico preciso dos verbos usados no trecho; palavras próximas não autorizam o mesmo sentido.
  • Em narrativas de humor, pistas como hesitação, correção imediata e fala final costumam concentrar o critério decisivo da interpretação.

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