Leia o trecho do conto “São Marcos” a seguir. No desfecho d...

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Q3908705 Português
Leia, a seguir, o trecho da crônica “O homem trocado”, de Luis Fernando Verissimo, e responda à questão .

Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
– O senhor não faz chamadas interurbanas?
– Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
– Por quê?
– Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
– O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
– Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
– Apendicite? - perguntou, hesitante.
– É. A operação era para tirar o apêndice.
– Não era para trocar de sexo?

(VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 28.)
Leia o trecho do conto “São Marcos” a seguir.
No desfecho do conto “São Marcos”, o protagonista chega à casa de João Mangolô e, após lutar contra o feiticeiro, lhe dá uma nota de dez mil-réis e assim se dirige a ele: “Olha, Mangolô: você viu que não arranja nada contra mim, porque eu tenho anjo bom, santo bom e reza-brava... Em todo o caso, mais serve não termos briga...”(p. 217.)
De acordo com o trecho do conto, assinale a alternativa correta. 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a coerência interpretativa do desfecho: “Olha, Mangolô: você viu que não arranja nada contra mim, porque eu tenho anjo bom, santo bom e reza-brava... Em todo o caso, mais serve não termos briga...” e “Acontecer nunca me aconteceu nada; mas essas coisas são assim para rapaz. Quando a gente é novo, gosta de fazer bonito, gosta de se comparecer. Hoje, não: estou percurando é sossego...”. A fala final do protagonista, somada ao gesto de apaziguamento, conduz à alternativa C.

Tema central: mudança de postura
Análise das alternativas
A
Errada
O erro está em afirmar que o final mostra manutenção do desrespeito porque o protagonista se considera imune. Essa leitura ignora a parte decisiva do desfecho: “Em todo o caso, mais serve não termos briga...” e o fato de que “lhe dá uma nota de dez mil-réis”. Há, portanto, concessão e tentativa de encerrar o conflito, o que é incompatível com desrespeito mantido de forma pura.
B
Errada
A alternativa erra na generalização “essa sensibilidade é uniforme ao longo do conto quanto ao modo com que o protagonista se depara com práticas místicas”. A base aponta oscilação de postura: irreverência, incredulidade, sofrimento e, ao final, cautela. Sensibilidade lírica diante da natureza não autoriza concluir uniformidade psicológica diante do místico.
C
Certa
A alternativa C relaciona corretamente os dois trechos. Na fala de Aurísio, há oposição entre o impulso juvenil de “fazer bonito” e a procura de “sossego”. No desfecho, o protagonista não fica apenas na autoconfiança; ele também recua do confronto ao dizer “mais serve não termos briga...” e ao fazer uma concessão concreta ao feiticeiro. Isso autoriza a inferência de amadurecimento em sentido relativo: não uma transformação total, mas uma atitude final mais prudente.
D
Errada
O problema é duplo. Primeiro, o trecho citado não sustenta “cientificismo” como traço interpretativo decisivo, porque as hipóteses mencionadas incluem exagero e desorientação, não explicação científica consistente. Segundo, a alternativa cria uma relação causal não sustentada: o desfecho não decorre de convicções cientificistas, mas da experiência vivida e da busca de evitar nova briga.
E
Errada
A eliminação está no trecho “sem qualquer concessão para os feitiços”. O final mostra justamente concessão: o protagonista entrega dinheiro e propõe que não haja briga. Ainda que conserve autoconfiança, o desfecho não autoriza leitura de arrogância reaparecendo sem recuo algum.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de o leitor fixar-se só na parte autoconfiante da fala final e ignorar o segmento conciliador e o gesto de dar dinheiro, que mudam o sentido do desfecho.
Dica para questões semelhantes
  • No desfecho, não isole uma frase: leia a fala inteira e considere também a ação da personagem, porque o gesto pode corrigir uma interpretação apressada.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como “uniforme”, “sem qualquer concessão” e “manterá”, sobretudo quando o texto mostra oscilação de postura.
  • Quando a questão compara dois trechos, procure o valor comum entre eles; aqui, o elo é a passagem do enfrentamento para a busca de sossego.

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