Estabelecendo a correlação entre a crônica “O homem trocado”...

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Q3908704 Português
Leia, a seguir, o trecho da crônica “O homem trocado”, de Luis Fernando Verissimo, e responda à questão .

Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
– O senhor não faz chamadas interurbanas?
– Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes.
– Por quê?
– Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer:
– O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite.
– Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
– Apendicite? - perguntou, hesitante.
– É. A operação era para tirar o apêndice.
– Não era para trocar de sexo?

(VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 28.)
Estabelecendo a correlação entre a crônica “O homem trocado”, de Luiz Fernando Verissimo, e contos de Sagarana, de Guimarães Rosa, considere as afirmativas a seguir.
I. A infelicidade conjugal pode ensejar o tom grave, sério e triste que percorre o conto “Sarapalha”, como pode ser observado no trecho “Só sei que se ela, por um falar, desse de chegar aqui de repente, até a febre sumia...”, mas, na crônica de Verissimo, se soma aos episódios de humor como mais um caso de engano entre os tantos relatados.
II. No conto “A volta do marido pródigo”, há o seguinte trecho: “E, vai então pois então, Lalino teve um momento de fraqueza, e pediu a seu Oscar que procurasse a Ritinha e falasse, e dissesse, mas não dissesse isso, e calasse aquilo, mas dando a entender que... mas sem deixar que ela pensasse que... e aquil’outro, e também etc., e pronto.” O trecho é carregado de humor obtido com um arranjo de linguagem também encontrado no jogo entre engano e desengano, na crônica.
III. No trecho do conto “São Marcos” – “Pé por p... Outra árvore que não me vê, ai!” –, o protagonista está cego e acerta a cabeça em uma árvore pela segunda vez. As circunstâncias em que o autor se manifesta poderiam desencadear a compaixão no leitor, mas é o humor que se sobrepõe, assim como nas desventuras da crônica.
IV. No conto “A hora e vez de Augusto Matraga”, Nhô Augusto dirige-se a Joãozinho Bem-Bem, chefe do bando de jagunços: “se o senhor não se acanha de entrar em casa de pobre, eu lhe convido para passar mal e se arranchar comigo...”. O humor do trecho revela-se no convite para “passar mal” e na ironia do protagonista, que preparara tocaia para o bando, assim como a enfermeira é cruel para o protagonista da crônica.
Assinale a alternativa correta.
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a compatibilidade das correlações literário-textuais com os efeitos produzidos pelos trechos citados. Na crônica, a sequência “Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes. / – Por quê? / – Ela me enganava. [...] / – O senhor está desenganado. / Mas também fora um engano do médico. [...] / – Não era para trocar de sexo?” organiza os enganos sob chave humorística, com jogo lexical e desfecho absurdo. Isso valida I, II e III e torna IV inadequada por forçar uma equivalência interpretativa não autorizada pelo texto.

Tema central: correlação de efeitos literários
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque exclui indevidamente a afirmativa III. A base sustenta III ao reconhecer uma correlação legítima entre situação penosa e sobreposição do humor, como ocorre nas desventuras do protagonista da crônica.
B
Errada
Está errada porque inclui a afirmativa IV. O problema de IV é duplo: reduz o trecho de Augusto Matraga a humor irônico equivalente ao da crônica e ainda chama a enfermeira de cruel, quando o texto apenas registra que ela “parou de sorrir”, perguntou “hesitante” e revelou um erro, sem intenção malévola explicitada.
C
Errada
Está errada porque elimina duas afirmativas sustentadas pela base. A I é válida pela diferença de tonalidade no tratamento da infelicidade conjugal, e a II é válida porque identifica corretamente humor ligado ao procedimento expressivo, não a mera coincidência vocabular.
D
Certa
A alternativa D está correta porque reúne exatamente as afirmativas que mantêm correlação válida com a crônica. A I se sustenta ao opor o tom grave de “Sarapalha” ao modo como a infelicidade conjugal aparece em Verissimo como mais um episódio da série de enganos. A II procede porque o humor, em Rosa, decorre do arranjo de linguagem, e, na crônica, do jogo entre “engano” e “desengano”. A III também é compatível com o texto-base, pois uma situação que poderia suscitar compaixão é tratada com predominância de efeito cômico. A IV fica de fora porque distorce o sentido do trecho de Augusto Matraga e atribui crueldade à enfermeira sem apoio textual suficiente.
E
Errada
Está errada porque inclui IV, que não se sustenta, e exclui I, que é válida. A I se apoia diretamente no trecho “Conhecera sua mulher por engano... Ela me enganava.”, em que a infelicidade conjugal entra na sequência humorística de enganos.
Pegadinha da questão
A questão explora a confusão entre ironia pontual e equivalência real de efeito narrativo. Isso leva o candidato a aceitar IV por semelhança superficial, ignorando que a comparação com a crônica é interpretativamente forçada.
Dica para questões semelhantes
  • Compare o efeito dominante do trecho, não apenas o tema em comum.
  • Quando a questão falar em correlação entre textos, valide a analogia pelo funcionamento da linguagem e da tonalidade narrativa.
  • Não atribua intenção psicológica ou moral a personagem sem apoio explícito do texto.
  • Se a alternativa exagera a equivalência entre dois trechos, verifique se ela não está trocando semelhança parcial por identidade de efeito.

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