Com base no Texto 12, em seu contexto de produção e circulaç...
Texto 12
O rei da vela
[...] ABELARDO I – Aqui não há acordo, meu amigo. Há pagamento!
O CLIENTE – Mas eu me acho numa situação triste. Não posso pagar tudo, seu Abelardo. Talvez consiga um adiantamento para liquidar...
ABELARDO I – Apesar da sua impontualidade, examinaremos as suas propostas...
O CLIENTE – Mas eu fui pontual dois anos e meio! Paguei enquanto pude! A minha dívida era de um conto de réis. Só de juros eu lhe trouxe aqui nesta sala mais de dois contos e quinhentos. E até agora não me utilizei da lei contra a usura... [...]
ABELARDO I — Não me fale nessa monstruosidade porque eu o mando executar hoje mesmo.
Tomo-lhe até a roupa, ouviu? A camisa do corpo.
O CLIENTE — Eu não vou me aproveitar, Seu Abelardo. Quero lhe pagar. Mas quero também lhe propor um acordo. A minha situação é triste... Não tenho culpa de ter sido dispensado. Empregueime outra vez. Despediram-me por economia. Não ponho minha filhinha na escola porque não posso comprar sapatos para ela. Não hei de morrer de fome também. Às vezes não temos o que comer em casa. Minha mulher agora caiu doente. No entanto, sou um homem habilitado. Tenho procurado inutilmente emprego por toda a parte. Só tenho recebido nãos enormes. Do tamanho do céu! Agora, aprendi escrituração, estou fazendo umas escritas. Uns biscates. Hei de arribar... Quero ver se adiantam para lhe pagar.
ABELARDO I — Mas, enfim, o que é que o senhor me propõe?
O CLIENTE — Uma pequena redução no capital.
ABELARDO I — No capital! O senhor está maluco! Reduzir o capital? Nunca!
O CLIENTE — Mas eu já paguei mais do dobro do que levei daqui...
ABELARDO I — Me diga uma coisa, Seu Pitanga. Fui eu que fui procurá-lo para assinar este papagaio? Foi o meu automóvel que parou diante do seu casebre para pedir que aceitasse o meu dinheiro? Com que direito o senhor me propõe uma redução no capital que eu lhe emprestei?
O CLIENTE (Desnorteado.) — Eu já paguei duas vezes...
ABELARDO I — Suma-se daqui! (Levanta-se.) Saia ou chamo a polícia. É só dar o sinal de crime neste aparelho. A polícia ainda existe...
O CLIENTE — Para defender os capitalistas! E os seus crimes!
ABELARDO I — Para defender o meu dinheiro. Será executado hoje mesmo. (Toca a campainha.)
Abelardo! Dê ordens para executá-lo! Rua! Vamos. Fuzile-o. É o sistema da casa.
O CLIENTE — Eu sou um covarde! (Vai chorando.) O senhor abusa de um fraco, de um covarde!
ANDRADE, Oswald de. O rei da vela. 11. ed. São Paulo: Globo, 2002, p. 40-41. [Fragmento]