O rio de águas claras corria lentamente e o sol já
ia se escondendo atrás das montanhas. Cansada, eu
buscava algo além da realidade. Coisas como estrelas que
falam, rosas que choram... A fantasia era pra mim um
desvio da realidade bruta. Diante daquele sol, dos ventos
e homens em verdadeira harmonia, parei. Sentei na relva
úmida. Sentia a natureza, meu mundo borbulhando em
latência plena.
Percebi que a uns metros de mim repousava um
homem de aparência rude. Cabelos despenteados, barba
por fazer e uma sacola com roupas como um pesado
fardo. Sentado, com os joelhos junto ao peito, parecia se
proteger da dor. A noite caía e ele permanecia ali, quase
imóvel. Assobiava como se cantasse uma canção de
adeus para alguém. Olhei-o pelas costas. Havia uma
mistura de sentimentos fechados no peito. Me aproximei.
"Triste?" Me atrevi a perguntar. "Não sei",
respondeu-me com a voz mansa. Não falei nada. Sentei
ao seu lado e fiquei admirando sua fisionomia austera e
amável ao mesmo tempo. O vento soprava doсе.
"Sabe, há muitos anos eu vivi nesse lugar..."
Começou a me dizer.
"Do lado esquerdo do rio havia uma palmeira. Já
me banhei aqui quando menino".
De repente parou de falar, como se eu não fosse
digna de tais confissões. Mas suas confusões pareciam
ser maiores que as desconfianças. Então, prosseguiu:
"Foi numa tarde como essa que eu, cansado de
andar, parei aqui para descansar. Desse mesmo lugar
onde estou agora, vi uma menina. Estava de costas. E eu
só pude ver aqueles longos cabelos negros que lhe caíam
nas costas, como um manto. Depois disso, corri mundo.
Naveguei os sete mares. Conheci mulheres
deslumbrantes. Cheguei a lutar numa guerra, apesar de
achá-la ridícula. Fiz o diabo nesse mundo de Deus. Mas
nem todas as loucuras, nem todos os bordéis de beira de
estrada, nem os vinhos que me embebedaram, me fizeram
esquecê-la. Aquela menina sempre viveu nos lugares mais
bonitos de minha memória. Se ela existiu realmente, não
sei. Alucinação, talvez."
A essa altura o viajante não externava angústia.
Era como se contasse mais uma de suas aventuras.
Falava como se buscasse, num fundo qualquer, um jeito
adocicado de me contar sua vida.
"Talvez ela tenha se transformado numa estrela,
ou esteja à beira de um outro rio, despedaçando outros
corações. Quem sabe, esteja despertando outros amores.
Mas viverá em mim até o fim dos meus dias."
E nessa mistura de amor, aventura, ilusão e
doçura, levantou, se despediu e seguiu viagem. Sem
perceber que a mulher que tanto procurava estava ali, a
seu lado.
SOUZA, Maria de Lourdes. Dicionário de Lembranças. Río de
Janeiro: Editora Contemporânea, 1998.
O termo sublinhado no trecho a seguir foi escrito
corretamente: "o sol já ia se escondendo atrás das
montanhas". Qual alternativa também está correta?