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Q3081751 Português

Texto pra responder à questão.


Central Park


    Para nossa sorte, o Museu da Língua Portuguesa não aceitava cartão nem cheque e o caixa automático mais perto ficava do outro lado do Parque da Luz. Quando digo sorte, não ponho nem uma gota de ironia.

    Pertenço à primeira geração privatizada do Brasil. Na infância, ainda aproveitei aquele antigo espaço público chamado rua. Cresci numa vila, gritando um-dois-três-Antônio-salvo embaixo de goiabeiras e chapéus de sol, desenterrando moedas do vão entre os paralelepípedos, com interesse arqueológico e acreditando que o mundo era um lugar assim, por onde a gente podia correr, gritar e cavucar sem maiores problemas.

    Quando cheguei à adolescência, contudo, a violência – ou o medo da violência, que não deixa de ser, também, uma violência – já havia transformado a rua em mera passagem entre um lugar e outro. Adolesci em casas, escolas, shoppings, restaurantes, cinemas e outras instituições intramuros, num pedaço da cidade que raramente excedia os limites da Zona Oeste. De modo que, aos 30 anos, vergonhosamente, não conhecia o Parque da Luz.

    No portão, uma senhora vendia maçãs do amor, ao lado de dois repentistas cantando uma embolada. Um boliviano de calça camuflada, chapéu de cowboy e barrigão para fora da camisa passou por nós fumando um charuto e cantando um Rap em castelhano. Lá dentro, crianças brincavam no tanque de areia e corriam entre enormes esculturas de metal. A dois metros do tanquinho, senhoras de programa exibiam um despudor cheio de pudores – um discreto exagero no batom e nos decotes insinuava que não estavam ali a passeio. 

    Tímidos, garotos e garotas exalando hormônios e desodorante faziam o footing na alameda central, como antigamente, com uma ingenuidade que combinava com o chafariz e os bancos de madeira, mas não com a cidade em torno das grades de ferro. Por toda parte, imigrantes falavam castelhano e pensei que já era hora de parar de comemorar a chegada dos japoneses e começar a entender a entrada dos bolivianos.

    Tiramos dinheiro do outro lado do parque e refizemos o mesmo caminho, reparando nas esculturas, nos chapéus de cowboy, nos decotes e sotaques tão distintos que, reunidos pela curadoria do acaso, faziam daquele quadrilátero verde uma província cosmopolita, avesso de São Paulo e, ao mesmo tempo, a sua cara. Pagamos o museu com uma nota de cinquenta. Uma pena que o moço tivesse troco.


(PRATA, Antônio. Publicada no Guia do Estado. Em: setembro de 2008.)

Diferente da língua padrão, que é a variedade de maior prestígio social, a linguagem coloquial está diretamente ligada à norma popular, que são todas as variedades linguísticas que se divergem da variedade padrão. É exemplo claro dessa norma (linguagem) coloquial (popular):
Alternativas

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Tema central: A questão aborda o reconhecimento das variedades linguísticas, especialmente a linguagem coloquial (ou popular), versus a linguagem formal, conforme preconizado na norma-padrão da Língua Portuguesa.

Comentário da alternativa correta (D):

No trecho “Um boliviano de calça camuflada (...) e barrigão para fora da camisa passou por nós fumando um charuto [...]”, o vocábulo “barrigão” destaca-se pela formação com o sufixo aumentativo “-ão”, recurso típico da linguagem coloquial. Como explicitam Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra, os aumentativos são comuns na oralidade e sinalizam um afastamento da linguagem formal, empregando expressividade e familiaridade, elementos típicos da fala do dia a dia.

A expressão “barrigão para fora da camisa” também utiliza uma construção sintática direta e espontânea, privilegiando a vivacidade na descrição, característica da comunicação informal.

Análise das alternativas incorretas:

A) “Pertenço à primeira geração privatizada do Brasil.” — Frase estruturada conforme a norma culta, sem uso de gírias, neologismos informais ou aumentativos. Discurso reflexivo e formal.

B) “Adolesci em casas, escolas, shoppings, restaurantes, cinemas e outras instituições intramuros, [...]” — O verbo “adolesci” (uso criativo, mas dentro do padrão formal), lista de espaços e enumeração formalizada, sem traços da oralidade popular.

C) “No portão, uma senhora vendia maçãs do amor, ao lado de dois repentistas cantando uma embolada.” — Narrativa detalhista, mas descritiva, utilizando substantivos e estruturas próprias da modalidade formal.

Estratégia para provas: Busque palavras com sufixos aumentativos ou diminutivos (“-ão”, “-inho”), gírias, expressões regionais ou frases sintaticamente simplificadas para identificar linguagem coloquial, conforme recomendam as principais gramáticas.

Resumo: A alternativa D exemplifica claramente a linguagem coloquial pelo uso do aumentativo informal “barrigão”. As demais permanecem no âmbito da linguagem formal.

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Comentários

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A calça tem estampa camuflada

A expressão "barrigão para fora da camisa" é típica da linguagem coloquial. Usa um tom mais informal e é comum na oralidade.

"barrigão para fora da camisa" entregou muito rsrsrs

estava tão óbvio que quase errei.

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