Para o narrador, a verdadeira poesia permite-lhe

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Ano: 2023 Banca: VUNESP Órgão: PM-SP Prova: VUNESP - 2023 - PM-SP - Soldado |
Q3545011 Português
O chá, os fantasmas, os ventos encanados

        Nasci no tempo dos ventos encanados, quando, para evitar compromissos, a gente dizia estar com enxaqueca, palavra horrível mas desculpa distinta. Ter enxaqueca não era para todos, mas só para essas senhoras que tomavam chá com o dedo mindinho espichado. Quando eu via aquilo, ficava a pensar sozinho comigo (menino, naquele tempo, não dava opinião) por que é que elas não usavam, para cúmulo da elegância, um laçarote azul no dedo...

        Também se falava misteriosamente em “moléstias de senhoras” nos anúncios farmacêuticos que eu lia. Era decerto uma coisa privativa das senhoras, como as enxaquecas, pois as criadas, essas, não tinham tempo para isso. Mas, em compensação, me assustavam deliciosamente com histórias de assombração. Nunca me apareceu nenhuma.

        Pelo visto, era isso: nunca consegui comunicar-me com este nem com o outro mundo. A não ser através d’O tico-tico e da poesia de Camões, do qual até hoje me assombra este verso único: “Que o menor mal de tudo seja a morte!”

        Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo.

(Mario Quintana. Da preguiça como método de trabalho, 2013. Adaptado)
Para o narrador, a verdadeira poesia permite-lhe
Alternativas

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Tema da questão: Interpretação de texto (compreensão do sentido global e identificação de ideia central a partir de marcadores discursivos e retomadas).

Estratégia para resolver: procure a frase que resume a conclusão do narrador e observe os marcadores que conduzem ao desfecho. No texto, expressões como “Pelo visto” (avaliação/conclusão provisória), “A não ser” (exceção) e “Pois” (explicação/justificativa) organizam o raciocínio até a ideia central. A repetição de “este e o outro mundo” é um recurso de coesão que aponta diretamente para a resposta.

Alternativa correta: B — “interagir com este e com o outro mundo.”

O narrador afirma que a verdadeira poesia é um meio de comunicação com este e com o outro mundo. “Interagir” parafraseia “comunicar-se”, mantendo o mesmo núcleo de sentido. A própria retomada literal de “este e o outro mundo” sustenta a escolha. Marcador “Pois” introduz a explicação conclusiva, reforçando que a função da poesia é servir de ponte entre realidades.

Por que as demais estão incorretas:

A) “Compreender sua pequeneza ante Camões.” — A menção a Camões aparece como exemplo de poesia que impressiona o narrador, não como sentimento de inferioridade. A alternativa cria uma conclusão não afirmada no texto.

C) “Entender as moléstias de senhoras.” — As “moléstias” surgem como tema lateral da infância do narrador; não há relação de função da poesia com esse conteúdo. Desvia do foco semântico.

D) “Evitar as histórias de suas criadas.” — O texto indica que tais histórias o assustavam com prazer, e isso não se vincula à poesia. Além disso, “evitar” contraria o sentido narrado e não decorre da tese final.

E) “Ser tão elegante como as senhoras.” — A “elegância” do dedo mindinho é apenas um traço anedótico do contexto social. Não há relação com o papel da poesia, portanto é irrelevante para a conclusão.

Dicas de leitura e pegadinhas:

- Foque nos marcadores discursivos que levam à tese: “Pelo visto” (encaminha a conclusão), “A não ser” (introduz a exceção pela qual ele se comunica), “Pois” (explica/justifica a conclusão).

- Use a paráfrase fiel: “meio de comunicação” → interagir/comunicar-se com “este e o outro mundo”.

- Evite distratores baseados em detalhes periféricos (enxaquecas, moléstias, elegância, criadas), que aparecem como contexto narrativo, não como tese.

Nota linguística (Gramática Normativa): “Pois” funciona aqui como conector de explicação/conclusão, articulando a ideia final (cf. gramáticas normativas como Cunha & Cintra e Bechara sobre conjunções explicativas e valor discursivo). A repetição de “este e o outro mundo” é um mecanismo de coesão lexical, comum em textos argumentativos.

Gabarito: B

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Comentários

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Letra B

O narrador deixa explícito no texto:

"Pois a verdadeira poesia sempre foi um meio de comunicação com este e com o outro mundo."

Logo a alternativa correta: B

Que coisa mais linda.

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