Considere o seguinte trecho: “O psicólogo Sam Carr, da Unive...
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Por que você não precisa estar sozinho para se sentir solitário
Existem muitos tipos de solidão, que cada pessoa sente de forma diferente. O que é a solidão para você?
A solidão pode ser uma cidade. Nas suas ruas, em meio ao burburinho, às multidões, às conversas e risadas, alguém pode muito bem se sentir um estranho – desnorteado, desconectado, no caminho dos outros.
É senso comum que o isolamento físico pode levar à solidão – e poucas coisas são tão dolorosas quanto a solidão crônica, imposta e vivenciada pelas pessoas mais vulneráveis da nossa sociedade. Mas, as pessoas nem sempre são o antídoto contra a solidão. Na verdade, elas podem até fazer parte do problema.
O fato é que podemos ficar sozinhos com a mesma facilidade em meio a uma multidão, em um relacionamento amoroso ou entre amigos. Um estudo de 2021 envolvendo 756 pessoas que registraram regularmente como se sentiam em um aplicativo de celular por um período de dois anos confirmou essa observação.
A sensação de solidão parece aumentar em ambientes superlotados e densamente povoados – ou seja, nas cidades modernas. Será que o nosso estilo de vida cada vez mais urbano e dominado pela tecnologia está nos deixando com a sensação de estarmos menos conectados uns aos outros? E existem soluções escondidas nessas descobertas?
Entender esse paradoxo certamente é importante. Afinal, sabemos que vivemos uma “epidemia de solidão” – um surto global que não reconhece fronteiras, afeta jovens e idosos e pode até reconfigurar o nosso cérebro.
Mas essa epidemia chega em um momento em que temos mais formas do que nunca para nos conectar com os demais.
A tecnologia nos permite ligar para os amigos e familiares no outro lado do planeta, conversar on-line com pessoas que nunca encontramos pessoalmente e acompanhar as vidas dos nossos conhecidos nas redes sociais.
Por outro lado, a população urbana também está crescendo rapidamente. Estima-se que 68% da população mundial more em cidades até meados deste século. Por que, então, no nosso mundo atribulado e conectado pela tecnologia, ainda nos sentimos solitários, mesmo em meio a outras pessoas?
E seria esta realmente outra pandemia, algo a ser sempre evitado, medicado, erradicado, estigmatizado? Ou podemos também aprender com ela?
A solidão é um conceito complexo e difuso, algo que todos nós vivenciamos de alguma forma. A professora de história Fay Bound Alberti, do King's College de Londres, é a autora do livro A Biography of Loneliness (“Biografia da solidão”, em tradução literal). Ela defende que, em vez de um estado emocional definido, a solidão, na verdade, é um “conjunto” de emoções, que pode incluir sentimentos como pesar, raiva e ciúme.
Ainda assim, a ciência define atualmente a solidão, de forma geral, como a desconexão entre os relacionamentos sociais reais e os desejados, o que reflete a realidade de que você não precisa estar sozinho para se sentir solitário.
O psicólogo Sam Carr, da Universidade de Bath, no Reino Unido, pesquisa os relacionamentos humanos. Ele acredita que o “maior mito” é que as pessoas são sempre a solução para a solidão. “As pessoas, na verdade, podem ser a causa”, afirma Carr. Ele é o autor do livro All the Lonely People (“Todas as pessoas solitárias”, em tradução literal), que estuda as diversas experiências de solidão das pessoas.
“Todos nós somos uma espécie de peça de quebra-cabeça e queremos sentir que nos encaixamos”, explica ele. “E as outras pessoas, muitas vezes, podem ser o motivo de não nos sentirmos assim”. “Mesmo se for um amigo ou parceiro, talvez eles não nos reconheçam por quem somos. Ou nos fazem parecer invisíveis. Ou precisamos fingir que somos outra pessoa na companhia deles. Para muitas pessoas, esta parece ser a essência da sua solidão”.
Bound Alberti concorda que o isolamento físico dos demais não é necessariamente o que torna as pessoas solitárias. “As pessoas mais solitárias são aquelas que estão em relacionamentos que deveriam ser enriquecedores, mas não são. Algumas das experiências mais solitárias que vivenciei ocorreram quando eu estava rodeada de muitas pessoas que não estão nem remotamente na mesma frequência que eu”.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2pplx1352o. Acesso em 27/01/2025.