O texto apresenta a experiência de Everton Freire em uma en...

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Q3795013 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.


Como é fazer entrevista de emprego com uma inteligência artificial: tempo foi otimizado, mas desumaniza


O economista Everton Freire, de 33 anos, havia preenchido dezenas de formulários em busca de trabalho quando finalmente recebeu um e-mail positivo: fora selecionado para a segunda etapa de um processo seletivo em uma empresa de educação na área da saúde. Surpreendeu-se ao saber que seria entrevistado por uma inteligência artificial — experiência inédita entre as vagas às quais havia se candidatado.

Esse tipo de tecnologia vem sendo adotado por empresas brasileiras de vários portes. No caso de Freire, as instruções chegaram por WhatsApp, e suas respostas deveriam ser enviadas em áudio. O sistema reagia de forma imediata, adaptando as perguntas às respostas. Após poucas interações, a entrevista terminou com um retorno positivo: ele se encaixava no perfil da vaga. O processo, porém, não avançou.

Freire relata ter sentido curiosidade e estranhamento. Achou impessoal falar com uma máquina, especialmente em uma empresa da área da saúde. Depois reconheceu que o tempo fora otimizado e que, ao menos, obteve um retorno rápido. Hoje, já empregado, avalia que a tecnologia beneficia mais as empresas do que os candidatos: "é eficiente, mas desumaniza o processo".

O uso de IA em processos seletivos não é novo, mas se expandiu com a IA generativa, como o ChatGPT. Segundo a professora Humberta Silva, da Hochschule Bremen, o grande volume de candidaturas em plataformas como o LinkedIn levou empresas a recorrerem à automação. A pandemia acelerou esse movimento, com chatbots, entrevistas avaliadas por algoritmos e rankings automáticos.

Especialistas apontam vantagens como escalabilidade, padronização e redução de vieses. Edison Audi Kalaf, professor do Insper, afirma que o impacto da IA pode superar o da internet no início dos anos 2000, desde que usada de modo ético.

Startups brasileiras já oferecem esse tipo de serviço, defendendo ganhos de tempo e custo. Patrick Gouy, da Recrut.AI, ressalta que seria inviável analisar milhares de currículos sem apoio tecnológico. Christian Pedrosa, da DigAI, diz que o modelo reduz vieses, e Augusto Salomon, da Starmind, afirma que a IA tende a julgar menos que humanos. Para Pamela Borges, da Coploy, a tecnologia não substitui o recrutador, mas libera o profissional para tarefas mais estratégicas.

A tese de doutorado de Humberta Silva, na FEA-USP, conclui que as vantagens da IA ainda não superam os efeitos negativos, como a exigência de palavras-chave, o acesso desigual à internet e a falta de transparência sobre o uso da tecnologia. O desequilíbrio de poder entre empresas e candidatos também aumenta, pois as corporações dispõem de mais informações.

Em testes feitos pela BBC News Brasil, as entrevistas conduzidas por IA destacaram a valorização de termos técnicos e avaliações automáticas pouco contextualizadas. Em um caso, um candidato foi penalizado por não citar "SEO", exigência apenas opcional. Em outro, as respostas foram criticadas por motivos sem relação com a pergunta.

Em um experimento, jornalistas responderam a uma entrevista com textos criados pelo ChatGPT, adaptados para soar naturais. O desempenho foi bem avaliado, mas o sistema registrou suspeita de leitura das respostas.

O uso de IA em recrutamentos exige cautela jurídica. O advogado Rafael Bispo de Filippis, do escritório Mattos Filho, explica que, mesmo sem legislação específica, continuam válidas as regras contra discriminação. Se o algoritmo agir de forma enviesada, o candidato pode buscar indenização. O projeto de lei aprovado no Senado em 2024, ainda em análise na Câmara, prevê transparência, direito à informação e correção de vieses.

Filippis recomenda que empresas mantenham contratos claros com os fornecedores de IA e arquivem as entrevistas, garantindo meios de defesa em caso de litígio. Candidatos podem solicitar acesso a seus dados com base na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Ainda cercado de desafios éticos e humanos, o uso da inteligência artificial em entrevistas tende a se consolidar. Para as empresas, representa eficiência; para candidatos como Everton Freire, lembra que, mesmo com ganhos de tempo, nada substitui o olhar humano no processo de seleção.


https://www.bbc.com/portuguese/articles/cewyng440vro.adaptado. 
O texto apresenta a experiência de Everton Freire em uma entrevista de emprego conduzida por inteligência artificial, revelando percepções pessoais, implicações sociais e questões éticas sobre a presença crescente das máquinas em processos seletivos. O relato individual, somado às análises de especialistas, permite compreender as ambiguidades e os desafios dessa inovação no contexto profissional contemporâneo.

Com base na leitura do texto, é CORRETO afirmar que ele evidencia:
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é o fecho argumentativo do texto, que explicita a convivência entre utilidade tecnológica e limite humano: "Ainda cercado de desafios éticos e humanos, o uso da inteligência artificial em entrevistas tende a se consolidar. Para as empresas, representa eficiência; para candidatos como Everton Freire, lembra que, mesmo com ganhos de tempo, nada substitui o olhar humano no processo de seleção." Como o comando pede o que o texto evidencia, a alternativa correta deve reproduzir essa tese global sem absolutizar a IA.

Tema central: eficiência e humanização
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por extrapolação semântica: transforma a apresentação de vantagens da IA em defesa de substituição completa dos recrutadores humanos. O texto não sustenta isso; ao contrário, afirma que a tecnologia "não substitui o recrutador" e conclui que "nada substitui o olhar humano no processo de seleção". Logo, há incompatibilidade direta com a tese global.
B
Errada
A alternativa incorre em absolutização indevida ao afirmar justiça total, transparência assegurada e eliminação de preconceitos. O texto diz o oposto em pontos centrais: menciona "falta de transparência sobre o uso da tecnologia", possibilidade de atuação enviesada do algoritmo, penalizações inadequadas e "acesso desigual à internet". Assim, não há visão otimista irrestrita, mas problematização dos limites da IA.
C
Errada
A alternativa é excluída porque nega conteúdos explicitamente presentes no texto. Não é verdade que a abordagem se centra apenas na eficiência corporativa nem que ignora os candidatos e os dilemas éticos, jurídicos e sociais. O texto aborda desumanização, aumento do desequilíbrio de poder, cautela jurídica, discriminação algorítmica e direito à informação. Portanto, a leitura proposta pela alternativa contradiz o texto de modo frontal.
D
Certa
A alternativa D está correta porque corresponde ao posicionamento predominante do texto: ele reconhece vantagens práticas da inteligência artificial nos recrutamentos, como eficiência e otimização do tempo, mas mantém a crítica aos efeitos sobre a dimensão humana, além de mencionar desafios éticos e jurídicos. Isso aparece tanto na fala de Everton Freire — "é eficiente, mas desumaniza o processo" — quanto na conclusão, que ressalta que "nada substitui o olhar humano no processo de seleção". Assim, D é a única opção que acompanha a síntese do texto sem transformá-lo em defesa irrestrita nem em condenação total.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre reconhecer ganhos de eficiência da IA e defender sua adoção irrestrita. O texto é construído por contraste: apresenta vantagens, mas também limites humanos, éticos, sociais e jurídicos. Quem ignora essa ambivalência cai nas alternativas absolutas.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando perguntar o que o texto evidencia, procure a tese global e o fecho conclusivo, não uma informação isolada.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como "completa", "totalmente", "elimina" e "assegura", se o texto trabalha com contrastes e ressalvas.
  • Observe marcas de oposição ou concessão no texto, porque elas costumam revelar a posição central do autor.

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Comentários

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O texto discute o uso crescente da inteligência artificial em entrevistas de emprego, destacando tanto os ganhos de eficiência quanto as preocupações éticas e jurídicas que acompanham a automação de processos seletivos. Ao reunir relatos de candidatos, opiniões de especialistas e considerações legais, a narrativa propõe uma reflexão sobre os limites da tecnologia quando aplicada a contextos humanos e decisórios. 

Gabarito: Letra D.

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