Minha filha tem um adormecer difícil. Sempre imagina
algo antes de dormir e me pede histórias. Certa noite,
quis saber se o mundo inteiro dormia com ela. Disse-lhe
que muitos fazem isso: procuram um sonho e o
encontram no sono. A menina decidiu que queria ver a
lua; as tradições antigas diziam que ela lamenta a perda
da luz solar, e isso a encantou.
Deitada, pediu que eu soprasse um sonho para ela.
Encostou a cabeça no meu peito e adormeceu. Sonhou
que buscava a lua e que, ao alcançá-la, ambas se
olhavam como quem se reconhece. Mas algo a
assustou: a lua não tinha nome, apenas um brilho preso
a um medo antigo. Ao ouvir o choro da menina, a lua
também chorou, revelando que temia ser esquecida.
No sonho, choraram juntas, e uma pequena ave surgiu,
feita de ecos da própria lua. A ave pediu que a menina
cantasse para espantar o silêncio. A menina cantou, e a
lua, aos poucos, recuperou sua luz. Era o canto mais
lindo que alguém já ouvira em todo o universo. Então,
libertou a ave que saíra dela mesma e que agora voava
sobre a noite renovada.
Quando acordou, minha filha me contou que tinha visto a
lua mais bonita do mundo. Disse que a canção que
sonhara ainda ecoava dentro dela. Sorriu com a certeza
simples das crianças: a de que algumas belezas só
aparecem para quem as sonha primeiro.
COUTO, Mia. A luavezinha. Texto adaptado a partir de: COUTO, Mia.
Contos do nascer da Terra. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras,
2014.
No trecho "Quando acordou, minha filha me contou que
tinha visto a lua mais bonita do mundo", o verbo "contar"
é empregado com um uso típico da norma-padrão. Considerando a estrutura da oração, a transitividade
verbal e a função sintática dos termos pode-se afirmar
que esse verbo é:
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