O trecho retirado do texto que demonstra um paradoxo na fala...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3701115 Português
Leia o trecho do monólogo a seguir.


“ – E tudo começou assim. Em um dia qualquer... segunda, terça, sábado, domingo quem sabe. Não importa. Sei que ali ele estava. O que? Ainda não viram? O buraco? Sim no meio da sala dele, do seu quarto, do seu banheiro, da sua cozinha, dentro dele? Não sei. Só sei que lá estava. E talvez aquele seria os primeiros sintomas da saúde mental dele. Incomodava-o? O que? O nome dele? Não interessa. Só sei que estava lá. Era um buraco, no início não muito grande. Com o tempo foi crescendo. E ele era aquele garoto sem resposta para a vida. Afinal, alguém tem resposta quando criança? Como ter resposta se a vida mal está começando quando se é criança? Na realidade, a vida inteira não cabe uma resposta.

– E assim, a loucura se torna feito uma sinfonia, desconcertante, sim, um desconcerto, sem s, pois se faz um concerto, numa melodia desconcertante, sem s, desconcertante sem s... num desconforto em que num desequilíbrio equilibrado soa em um tiro a morte da sinfonia. (PAHHHHHH!)

(O PIANISTA CAI A CABEÇA SOBE O PIANO COMO SE TIVESSE MORRIDO)

– Não há buraco mais profundo e tenebroso.... Do que aquele que acompanha o nosso âmago, a nossa própria alma!!!! E era noite escura de um sol deslumbrante, arrancando-nos um suor naquele inverno cortante, e nós ali, no bosque de um arvoredo sem árvores, com pássaros deixando rastros de suas pastagens, enquanto ouvíamos o barulho dos rinocerontes mexendo em seus ninhos nos Baobás. Mas lá estávamos, quem? Eu, o meu reflexo e aquele buraco entre nós. Agora eu sentia ressurgir o som da sinfonia (O PIANISTA COMEÇA A TOCAR), porque não há vida que se possa negar a morte, e nem há morte que se possa negar a viver.

(OLHA PARA TODA A PLATEIA COM UM OLHAR NUMA MISTURA DE IRONIA)

– Não importa meu DESCONCERTO, SIM, DESCONCERTO SEM S, POR QUÊ? UMA SINFONIA DISSONANTE EM HARMONIA COM AS SINGULARIDADES.”

(Peça “Desconcerto” – Tulius Mendonça) 
O trecho retirado do texto que demonstra um paradoxo na fala da personagem, ou seja, utilizando de antíteses e ideias antagônicas está em: 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema da questão: interpretação de texto com foco em figuras de linguagem — especialmente paradoxo (ideias inconciliáveis), antítese (termos opostos) e oxímoro (contradição em uma mesma expressão).

Estratégia para resolver: leia procurando oposições explícitas e, principalmente, situações logicamente impossíveis. Sinais típicos: pares como “noite/sol”, “frio/calor”, “com/sem”. A antítese opõe termos; o paradoxo coloca juntos elementos incompatíveis, gerando efeito de sentido. Em gramáticas como Bechara (Moderna Gramática Portuguesa) e Cunha & Cintra (Gramática do Português Contemporâneo), o paradoxo é apresentado como contradição aparente que revela uma verdade poética; o oxímoro é sua forma mais concentrada (“noite clara”).

Alternativa correta: D

A passagem “E era noite escura de um sol deslumbrante, arrancando-nos um suor naquele inverno cortante, e nós ali, no bosque de um arvoredo sem árvores” reúne antíteses e forma paradoxos claros:

noite × sol: coexistência impossível no plano literal — paradoxo/oxímoro.

inverno cortante × suor: frio intenso que provoca um efeito de calor — paradoxo.

arvoredo sem árvores: contradição interna na própria expressão — oxímoro.

Essas construções materializam a “loucura” e a desarmonia do monólogo por meio de imagens incompatíveis, exatamente o que caracteriza o paradoxo em linguagem literária.

Por que as demais estão incorretas?

A) Traz enumeração temporal (“segunda, terça, sábado, domingo”), indicando indeterminação do dia. Não há oposição de ideias inconciliáveis, apenas listagem. Sem paradoxo.

B) “Talvez aquele seria os primeiros sintomas da saúde mental dele. Incomodava-o?” Não há oposição nítida de ideias. Observações:

• Há problema de concordância verbal/nominal (norma culta — Bechara; Cunha & Cintra): o correto seria “aqueles seriam os primeiros sintomas” (plural) ou “aquele seria o primeiro sintoma” (singular). O verbo “ser” concorda com o sujeito.

• “Sintomas da saúde” soa irônico/insólito, mas não configura, por si só, paradoxo no sentido clássico; seria mais uma escolha expressiva.

C) “Como ter resposta... a vida inteira não cabe uma resposta.” Há reflexão geral e hipérbole (“a vida inteira...”), porém sem contradições lógicas internas. Não há pares antagônicos ou incompatibilidade semântica direta. Logo, não é paradoxo.

Dica de prova: para localizar paradoxo, procure expressões com impossibilidade lógica imediata (ex.: “silêncio estridente”, “escura claridade”). Para antítese, busque apenas a oposição de termos (ex.: “vida/morte”), sem necessidade de contradição impossível. Essas distinções são referendadas nas gramáticas normativas (Bechara; Cunha & Cintra) e em manuais de estilística.

Gabarito: D

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo