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Ano: 2021
Banca:
Instituto Consulplan
Órgão:
Prefeitura de Ervália - MG
Prova:
Instituto Consulplan - 2021 - Prefeitura de Ervália - MG - Vigilante Epidemiológico |
Q4384600
Não definido
Texto associado
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que a minha janela se abria para um
chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul.
Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias
límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o
pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa
ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um
canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de
flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava?
Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na
sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que
pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais
criança, porém minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela se abria para uma
cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de
terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs
vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era
uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim
não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para
as gotas de água que caíam de seus dedos magros, e meu
coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que
vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que
abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas
brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Às
vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que
estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não
existem, outras dizem que essas coisas só existem diante das
minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
(Crônica extraída do Livro “Escolha o seu sonho” de Cecília Meireles. 4ª
ed., Rio de Janeiro: Global Editora, 2016. Com adaptações.)
No fragmento “Para onde iam aquelas flores? Quem as
comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham
criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las?”
(2º§), o ponto de interrogação (?) tem como finalidade: