Identifique a alternativa que exemplifica um pleonasmo. 

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Q3413338 Português

PÁSCOA, SUBSTANTIVO FEMININO. As lendas e reviravoltas que fizeram da lebre um coelho.


Às vezes as ideias nos tomam a mente sem aviso — aconteceu comigo na última semana, em meio à compra dos ovos de Páscoa da família. No afã de prolongar a magia da data para as crianças, ia escrevendo no cartão dos chocolates "de: Coelho/para: ..." e, de repente, hesitei. E se fosse coelha?


As pessoas costumam se perguntar sobre o porquê do coelhinho da Páscoa. Não é mesmo evidente o elo entre a festa religiosa celebrada no próximo domingo e um mamífero espalhando ovos por aí — de chocolate, ainda por cima.


Em geral, elas se dão por satisfeitas com a explicação de que o ovo é um símbolo de vida e por isso se liga à ressurreição de Cristo, enquanto o coelho nos lembra a origem pagã da festa, a celebração da primavera no Hemisfério Norte. Entre março e abril, quando a vida se revigora, nascem as crias desse animal, conhecido pela fertilidade.


Para mim, a coisa se complica justo nesse ponto. Por que o coelho da festa é macho e as únicas coelhas lembradas (por motivos nada sagrados) são as da revista Playboy? Não seria o caso de dar o mérito e o lugar de honra à coelha?


Pois bem, fui pesquisar e, no início da tradição europeia, havia mesmo uma coelha. A bem da verdade, uma lebre fêmea (maior e mais orelhuda que sua prima, embora tão fértil quanto ela).


A lebre era sagrada para certos povos antes de Cristo. Júlio César chegou a observar que, nos territórios da atual Grã--Bretanha, ela não servia de alimento, devido a esse significado religioso. Na Grécia Antiga, era associada a Afrodite, a deusa do amor. Mais adiante, no século XIX, Jacob, um dos irmãos Grimm famosos pelos contos de fadas, escreveu sobre uma divindade feminina alemã ligada à fertilidade e à abundância (e outro alemão da mesma época a relacionou à lebre).


Diversas figuras femininas de fecundidade eram festejadas na Europa, nos meses promissores depois do frio, quando as lebres saltavam pelos campos com a filharada. Em algum momento, talvez para explicar às crianças como os ovos de Páscoa tinham ido parar nos jardins das casas, os animais começaram a fazer parte da festa, responsáveis pela distribuição. Daí para virar coelho, foi um pulo.


De uma deusa para outra, a lebre vira coelho, coelho não é coelha, se fosse também não botaria ovo, e o ovo nem de galinha é. Uma miscelânea bem plausível de contestação. Mas, rigores históricos e biológicos à parte, são as mulheres, divinas ou não, as que geram a vida. Por onde se olhe, uma fêmea, fosse de lebre ou de coelho, encaixaria melhor na lenda.


Veja se não estou certa. Os mais conservadores diriam ser papel feminino nutrir a família com afeto, cuidar do preparo dos chocolates e agradar às crianças com os doces. Já outros poderiam afirmar que hoje não faz sentido o distribuidor de presentes ser um homem (ou coelho, no caso). Afinal, há décadas a mulher não depende dele como provedor — aliás, segundo o IBGE, no Brasil são elas as chefes da maior parte das famílias.


Ainda assim, e a despeito de a equidade de gênero ser uma das bandeiras mais levantadas e debatidas atualmente, permanece comum nas decorações e ilustrações pascais o alegre coelho branco, geralmente vestindo roupas masculinas.


De minha parte, fecho este texto com uma constatação singela, mas essa, sim, incontestável. Em bom português, Páscoa é um substantivo feminino. 


(Lucília Diniz,Veja 29 de março de 2024) 

Identifique a alternativa que exemplifica um pleonasmo. 
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Gabarito comentado

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Tema central: Pleonasmo — figura de linguagem que consiste na repetição desnecessária de uma ideia, comum em nosso idioma tanto por vício quanto por efeito estilístico. No contexto do concurso, espera-se reconhecer quando há redundância não justificável, conforme a norma-padrão da Língua Portuguesa.

Justificativa da alternativa correta (D): “(...) uma lebre fêmea (...)

A palavra “lebre” já apresenta gênero feminino tanto na forma (ao contrário de “coelho”) como no referente gramatical. Adicionar “fêmea” é uma repetição desnecessária, pois toda lebre, pela própria classificação, já indica o gênero do animal. Logo, caracteriza um pleonasmo vicioso.
Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), pleonasmo ocorre quando há “a repetição de ideias já contidas semanticamente em outras palavras”. Neste caso, “lebre” e “fêmea” reforçam uma mesma informação, o que fere a precisão da escrita.

Análise das alternativas incorretas:

A) “De minha parte, fecho este texto (...)"
Não há qualquer repetição de ideia ou expressão. É uma construção direta, apenas marcando a opinião da autora.

B) “Por onde se olhe, uma fêmea (...)"
Aqui, “fêmea” é o substantivo principal da frase, não havendo termo anterior que traga essa noção — portanto, não há pleonasmo.

C) “Daí para virar coelho, foi um pulo.”
Esta opção traz uma metáfora (expressão figurada), e não uma repetição de sentido, logo também não exemplifica pleonasmo.

Orientações de leitura:

Em questões como esta, fique atento a termos que “dizem o mesmo” sobre um aspecto factual (sexo do animal, por exemplo) e que ao serem ditos juntos, tornam-se dispensáveis. Lembre-se: o pleonasmo pode ser vicioso (falha) ou literário (enfático), mas em avaliações de concursos, busca-se identificar o vício contra a precisão, citada em gramáticas de referência como Cunha & Cintra.

Resumo da estratégia:
Identifique palavras que já contêm em si a ideia de outra, e verifique se a repetição é necessária ou não. Se for redundante e dispensável, caracteriza pleonasmo.

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GABARITO ERRADO

alternativa correta: letra D

  • A palavra "lebre" já indica um animal da espécie feminina (em português, o substantivo é feminino por definição).
  • Dizer “lebre fêmea” é uma repetição desnecessária de sentido, já que o gênero já está implícito na palavra.

Portanto, trata-se de um pleonasmo vicioso (repetição sem necessidade).

D

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