No fragmento “...e muitíssimos mais integram a teleplateia q...
Leia o texto e responda à questão proposta.
O fim da partida
No final do Mundial de 94, todos os meninos que nasceram no Brasil se chamaram Romário, e a grama do estádio de Los Angeles foi vendida em pedaços, como uma pizza, a vinte dólares a porção. Uma loucura digna de melhor causa? Um negócio vulgar e comum? Uma fábrica de truques manipulada por seus donos? Eu sou dos que acreditam que o futebol pode ser isso, mas também é muito mais do que isso, como festa dos olhos que o olham e como alegria do corpo que o joga. Uma jornalista perguntou à teóloga alemã Dorothee Sölle:
– Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade?
– Não explicaria – respondeu. – Daria uma bola para que jogasse.
O futebol profissional faz todo o possível para castrar essa energia de felicidade, mas ela sobrevive apesar de todos os pesares. É talvez por isso que o futebol não pode deixar de ser assombroso. Como diz meu amigo Ángel Ruocco, isso é o melhor que tem: sua obstinada capacidade de surpresa. Por mais que os tecnocratas o programem até o mínimo detalhe, por muito que os poderosos o manipulem, o futebol continua querendo ser a arte do improviso. Onde menos se espera salta o impossível, o anão dá uma lição ao gigante, e o negro mirrado e cambaio faz de bobo o atleta esculpido na Grécia.
[...]
(GALEANO, Eduardo. O fim da partida. In: Futebol ao sol e à sombra. Tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito. 3ª ed. PortoAlegre: L&PM, 2004. p. 203-204) (adaptado)
Gabarito comentado
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Comentário sobre a questão – Interpretação de texto / Figura de Linguagem: Ironia
Tema Central:
A questão avalia sua capacidade de interpretar ironias presentes no texto, ou seja, identificar situações em que o autor expressa ideias em tom de humor, crítica ou contraste com o literal.
Justificativa da Alternativa Correta (A):
O fragmento analisado diz que os jogadores “demonstram seu amor” “aos pontapés”. Trata-se de ironia – figura de linguagem em que se diz o oposto do que se espera (referências: Bechara; Cunha & Cintra). Espera-se que o amor seja demonstrado com carinho, e não por meio de chutes e agressividade. O autor, portanto, usa esse contraste de forma irônica para, de maneira leve ou crítica, destacar a intensidade passional do futebol.
Para identificar essa ironia, é importante analisar a relação entre as ações (pontapés) e o sentimento positivo declarado (amor), notando que o literal e o intencional não coincidem. Assim, marcar A é entender o efeito de sentido construído pela escolha do autor.
Análise das alternativas incorretas:
B) O texto não informa a quantidade exata de espectadores, apenas menciona “muitíssimos mais”; não há dado objetivo ou numérico ali.
C) “Roendo as unhas” é uma expressão idiomática para ansiedade; não implica comportamento animalesco dos espectadores.
D) “Senhores de calção” caracteriza os jogadores, mas o texto não expressa absurdo nessa escolha de palavras. O tom é descritivo e leve, não crítico nesse sentido.
E) “Teleplateia” refere-se ao público que assiste pela TV, não é um aparelho, mas sim uma coletividade de pessoas.
Dicas para futuras provas:
Fique atento a figuras de linguagem como ironia, metáfora e paradoxos em textos literários e jornalísticos. Ao perceber um contraste inesperado entre palavras (“amor” e “pontapés”), desconfie de uma intenção além do literal – um dos pontos centrais para interpretações em provas de concursos.
Referências normativas:
Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), ambos destacam a ironia como um recurso muito explorado em textos argumentativos e literários.
Alternativa correta: A
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