Ao girar uma manivela, o movimento era multiplicado, pelo qu...
Eu o ganhei no Natal dos meus sete ou oito anos. Ameio à primeira vista: levantara-me secretamente na madrugada e fora vasculhar os presentes, dando com ele. Não era teleguiado (era o começo dos anos 50), mas voava; era ligado por um cabo a um comando (não elétrico): ao girar (freneticamente) uma manivela, o movimento era multiplicado e transmitido até às pás do rotor, de forma que, efetivamente, o helicóptero se levantava até o braço da gente cansar.
Amei o helicóptero. Amei a sensação de que ele voava não por alguma mágica, mas pelo meu esforço. Brinquei com ele mais ou menos uma hora, até que, inexplicavelmente, ele se quebrou: eu acionava a manivela, ouvia um ruído de engrenagens infelizes, e as pás permaneciam paradas. Eu não aguentava a ideia de que meus pais tivessem notícia da morte precoce de seu presente, que tinham escolhido com carinho. Em suma, eu precisava proteger meus pais.
Não disse nada: coloquei o helicóptero de volta na caixa e o levei para a cama comigo. De manhã, consegui convencer a todos de que aquele era meu presente preferido, por isso não queria que ninguém mais o tocasse. Mantive essa ficção durante os dias seguintes. De fato, ninguém nunca mais brincou com ele.
E agora o helicóptero está aqui, na sua caixa de origem – símbolo da minha vontade sofrida e um pouco louca de fazer e proteger a felicidade de meus pais. Tem cara de novo, mas é um pouco tarde para invocar a garantia.
(Adaptado de Contardo Calligaris, Folha de S.Paulo, 01/07/2010)
Ao girar uma manivela, o movimento era multiplicado, pelo que o helicóptero se levantava e só se detinha quando o braço da gente cansava.
Reescrevendo-se a frase acima, reiniciando-a com o segmento Se eu girasse uma manivela, as outras formas verbais deverão ser, na ordem dada:
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Gabarito comentado
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Gabarito: E
Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a correlação verbal da reescrita condicional: em “Ao girar uma manivela, o movimento era multiplicado, pelo que o helicóptero se levantava e só se detinha quando o braço da gente cansava.”, ao trocar o início por “Se eu girasse uma manivela”, instala-se hipótese com pretérito imperfeito do subjuntivo na prótase; por isso, a oração principal deve ir para o futuro do pretérito (“seria”, “levantaria”, “deteria”), e a temporal dependente desse mesmo quadro hipotético deve ir para o pretérito imperfeito do subjuntivo (“cansasse”), o que leva à alternativa E.
- Se a reescrita começar com “se” + pretérito imperfeito do subjuntivo, verifique se a oração principal foi passada para o futuro do pretérito.
- Não transforme toda a frase em subjuntivo: em construções desse tipo, o subjuntivo fica na hipótese e também pode aparecer em oração subordinada dependente do mesmo quadro eventual, como a temporal com “quando”.
- Confira se a reescrita preserva a estrutura do verbo original; se havia voz passiva, ela deve continuar na nova forma verbal.
- Desconfie de formas em -ara quando a questão cobra consequência hipotética; aqui elas não equivalem ao futuro do pretérito.
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Comentários
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Pretérito imperfeito do subjuntivo (em geral terminações "-sse/-esse") + Futuro do pretérito do indicativo (em geral terminações "-ia/ria")
Expressa condições hipotéticas de uma ação para que outra se realize. Costuma aparecer com a partícula "se":
Se eu girasse uma manivela (pretérito imperfeito do subjuntivo), o movimento SERIA (futuro do pretérito) multiplicado, pelo que o helicóptero se LEVANTARIA (futuro do pretérito) e só se DETERIA (futuro do pretérito) quando o braço da gente CANSASSE.
Gabarito letra E.
Bons estudos!
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