Ao girar uma manivela, o movimento era multiplicado, pelo qu...

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Ano: 2010 Banca: FCC Órgão: MPE-SE Prova: FCC - 2010 - MPE-SE - Analista - Biblioteconomia |
Q2933585 Português
Um velho amor

Quando meus pais morreram, eu morava longe, e meu irmão se ocupou de esvaziar o apartamento de nossa infância. Acedi a seu desejo de guardar consigo nossos antigos brinquedos. Nestes dias (depois de tantos e tantos anos), passando duas semanas em sua casa, na Itália, explorei, pela primeira vez, um armário de três portas, onde encontrei nossos velhos jogos, um quebra-cabeças, um porta-aviões sem aviões, um “Pequeno químico”, caminhões etc. Atrás desse amontoado esbarrei num helicóptero, bem guardado em sua caixa original.
Eu o ganhei no Natal dos meus sete ou oito anos. Ameio à primeira vista: levantara-me secretamente na madrugada e fora vasculhar os presentes, dando com ele. Não era teleguiado (era o começo dos anos 50), mas voava; era ligado por um cabo a um comando (não elétrico): ao girar (freneticamente) uma manivela, o movimento era multiplicado e transmitido até às pás do rotor, de forma que, efetivamente, o helicóptero se levantava até o braço da gente cansar.
Amei o helicóptero. Amei a sensação de que ele voava não por alguma mágica, mas pelo meu esforço. Brinquei com ele mais ou menos uma hora, até que, inexplicavelmente, ele se quebrou: eu acionava a manivela, ouvia um ruído de engrenagens infelizes, e as pás permaneciam paradas. Eu não aguentava a ideia de que meus pais tivessem notícia da morte precoce de seu presente, que tinham escolhido com carinho. Em suma, eu precisava proteger meus pais.
Não disse nada: coloquei o helicóptero de volta na caixa e o levei para a cama comigo. De manhã, consegui convencer a todos de que aquele era meu presente preferido, por isso não queria que ninguém mais o tocasse. Mantive essa ficção durante os dias seguintes. De fato, ninguém nunca mais brincou com ele.
E agora o helicóptero está aqui, na sua caixa de origem – símbolo da minha vontade sofrida e um pouco louca de fazer e proteger a felicidade de meus pais. Tem cara de novo, mas é um pouco tarde para invocar a garantia.
(Adaptado de Contardo Calligaris, Folha de S.Paulo, 01/07/2010) 

Ao girar uma manivela, o movimento era multiplicado, pelo que o helicóptero se levantava e só se detinha quando o braço da gente cansava.

Reescrevendo-se a frase acima, reiniciando-a com o segmento Se eu girasse uma manivela, as outras formas verbais deverão ser, na ordem dada:

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a correlação verbal da reescrita condicional: em “Ao girar uma manivela, o movimento era multiplicado, pelo que o helicóptero se levantava e só se detinha quando o braço da gente cansava.”, ao trocar o início por “Se eu girasse uma manivela”, instala-se hipótese com pretérito imperfeito do subjuntivo na prótase; por isso, a oração principal deve ir para o futuro do pretérito (“seria”, “levantaria”, “deteria”), e a temporal dependente desse mesmo quadro hipotético deve ir para o pretérito imperfeito do subjuntivo (“cansasse”), o que leva à alternativa E.

Tema central: correlação verbal condicional
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa quebra a correlação exigida por “Se eu girasse”. Embora “seria” esteja adequado, “levantara”, “detera” e “cansara” estão no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, e não no futuro do pretérito ou no pretérito imperfeito do subjuntivo pedidos pela nova estrutura hipotética.
B
Errada
Há dois erros decisivos. Primeiro, “fosse” não reconstrói corretamente “era multiplicado”, porque a reescrita deve manter a voz passiva: o correto é “seria multiplicado”. Segundo, “levantasse” coloca a consequência principal no subjuntivo, quando a oração principal da condicional exige futuro do pretérito: “levantaria”. Além disso, “cansara” também rompe o quadro hipotético.
C
Errada
Só “seria” está correta. As formas “levantasse” e “detesse” estão no subjuntivo, mas a consequência principal da hipótese introduzida por “Se eu girasse” deve aparecer no futuro do pretérito: “levantaria” e “deteria”. O erro aqui é transferir indevidamente o subjuntivo para a oração principal.
D
Errada
A sequência mistura tempos e modos incompatíveis com a reescrita pedida: “fora” e “levantara” estão no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, “detivesse” está no subjuntivo e “cansar” está no infinitivo. Não há paralelismo nem correlação modo-temporal compatíveis com a estrutura “Se eu girasse...”.
E
Certa
A alternativa E é a única que recompõe corretamente toda a sequência verbal após a mudança estrutural para uma condicional hipotética. A forma inicial “Se eu girasse uma manivela” exige que a consequência venha no futuro do pretérito: “o movimento seria multiplicado”, “o helicóptero se levantaria” e “só se deteria”. Além disso, a oração introduzida por “quando” não descreve mais um fato apresentado como habitual no passado; ela passa a integrar o mesmo quadro hipotético, daí “quando o braço da gente cansasse”. Essa alternativa ainda preserva a voz passiva de “era multiplicado”, convertida corretamente em “seria multiplicado”.
Pegadinha da questão
A banca explora a troca de um enunciado com valor habitual por uma condicional hipotética e induz ao erro quem leva todas as formas para o subjuntivo ou aceita formas em -ara como se servissem para expressar a consequência da hipótese.
Dica para questões semelhantes
  • Se a reescrita começar com “se” + pretérito imperfeito do subjuntivo, verifique se a oração principal foi passada para o futuro do pretérito.
  • Não transforme toda a frase em subjuntivo: em construções desse tipo, o subjuntivo fica na hipótese e também pode aparecer em oração subordinada dependente do mesmo quadro eventual, como a temporal com “quando”.
  • Confira se a reescrita preserva a estrutura do verbo original; se havia voz passiva, ela deve continuar na nova forma verbal.
  • Desconfie de formas em -ara quando a questão cobra consequência hipotética; aqui elas não equivalem ao futuro do pretérito.

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Comentários

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Pretérito imperfeito do subjuntivo (em geral terminações "-sse/-esse") + Futuro do pretérito do indicativo (em geral terminações "-ia/ria")

Expressa condições hipotéticas de uma ação para que outra se realize. Costuma aparecer com a partícula "se":

Se eu girasse uma manivela (pretérito imperfeito do subjuntivo), o movimento SERIA (futuro do pretérito) multiplicado, pelo que o helicóptero se LEVANTARIA (futuro do pretérito) e só se DETERIA (futuro do pretérito) quando o braço da gente CANSASSE.

Gabarito letra E.

Bons estudos!

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