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Q3509239 Português
Instrução: Leia atentamente o texto e responda à questão.


Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho. Buscando terra e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher. Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso. Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa, que andavam de terra em terra procurando onde morar. Como eram bons, porque não havia mais chicote para castigar o povo. Como eram bons, por permitirem que plantassem seu próprio arroz e feijão, o quiabo e a abóbora. A batata-doce do café da manhã. "Mas vocês precisam pagar esse pedaço de chão onde plantam seu sustento, o prato que comem, porque saco vazio não fica em pé. Então, vocês trabalham nas minhas roças e, com o tempo que sobrar, cuidam do que é de vocês. Ah, mas não pode construir casa de tijolo, nem colocar telha de cerâmica. Vocês são trabalhadores, não podem ter casa igual a dono. Podem ir embora quando quiserem, mas pensem bem, está difícil morada em outro canto."


(VIERIA JÚNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019.)
Nesse excerto, o autor do texto constrói uma narrativa fortemente marcada pela presença de que recurso?
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Comentário de Gabarito – Interpretação de Texto / Figuras de Linguagem

Tema central: Figuras de linguagem, especificamente o uso da ironia como estratégia narrativa e crítica social. A questão exige interpretação do contexto e reconhecimento do efeito produzido no leitor a partir da oposição entre discurso e realidade.

Justificativa da alternativa correta – D) Ironia:

No excerto analisado, o autor expõe a contradição presente entre o discurso aparentando bondade dos antigos donos de terras ("como eram bons, porque davam abrigo", "não havia mais chicote"), em contraposição ao mantenimento de práticas opressoras (exigência de pagamento, proibição de melhorias na habitação, restrições de liberdade). A ironia se evidencia quando o discurso enaltece atitudes “generosas”, mas revela, em seu subtexto, a permanência da exploração e desigualdade.

Segundo a definição clássica (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa): “A ironia é uma figura que consiste em dizer o contrário do que se pensa, visando ridicularizar, satirizar ou denunciar.” O trecho ilustra crítica velada e sarcasmo quanto à “bondade” dos donos.

Análise das alternativas incorretas:

A) Pleonasmo: Repetição enfática do significado, como em “subir para cima”. Não ocorre no texto; o autor não repete ideias desnecessariamente.

B) Metáfora: Transferência de sentido com base em semelhança (“coração de pedra”). Há linguagem figurada, mas o predomínio é do efeito irônico, não da comparação metafórica.

C) Metonímia: Um termo no lugar de outro por relação de proximidade (“ler Machado de Assis” = ler obras do autor). Não se verifica substituição metonímica no fragmento.

Estratégias de interpretação: O candidato deve atentar-se ao contraste entre o que é dito e o que é praticado; identificar expressões entre aspas, tons de voz e contextos onde há elogio apenas na aparência. No concurso, procure sempre desconfiar de elogios excessivos em contextos opressores — frequentemente são indícios de ironia.

Referências: Celso Cunha & Lindley Cintra (2017), Evanildo Bechara (2009).

Resumo: A resposta correta é D) Ironia, pois o texto satiriza e denuncia as falsas benevolências dos ex-senhores de terra, escancarando a continuidade da exploração após a abolição da escravatura.

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