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Q3509238 Português
Instrução: Leia atentamente o texto e responda à questão.


Meu povo seguiu rumando de um canto para outro, procurando trabalho. Buscando terra e morada. Um lugar onde pudesse plantar e colher. Onde tivesse uma tapera para chamar de casa. Os donos já não podiam ter mais escravos, por causa da lei, mas precisavam deles. Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso. Passaram a lembrar para seus trabalhadores como eram bons, porque davam abrigo aos pretos sem casa, que andavam de terra em terra procurando onde morar. Como eram bons, porque não havia mais chicote para castigar o povo. Como eram bons, por permitirem que plantassem seu próprio arroz e feijão, o quiabo e a abóbora. A batata-doce do café da manhã. "Mas vocês precisam pagar esse pedaço de chão onde plantam seu sustento, o prato que comem, porque saco vazio não fica em pé. Então, vocês trabalham nas minhas roças e, com o tempo que sobrar, cuidam do que é de vocês. Ah, mas não pode construir casa de tijolo, nem colocar telha de cerâmica. Vocês são trabalhadores, não podem ter casa igual a dono. Podem ir embora quando quiserem, mas pensem bem, está difícil morada em outro canto."


(VIERIA JÚNIOR, Itamar. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2019.)
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Alternativas

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Questão de Interpretação de Texto – Resolução Comentada

Tema central: Esta questão exige do candidato a capacidade de interpretar informações implícitas, usando estratégias de leitura crítica e compreensão de figuras de linguagem, em especial ironia e eufemismo. São competências indispensáveis a qualquer profissional, inclusive arquitetos, que atuam em contextos sociohistóricos complexos.

Justificativa da alternativa correta (D):
O texto revela que, apesar da abolição da escravatura, os antigos “donos” mantiveram o controle sobre os trabalhadores, mudando apenas a aparência da relação. O discurso sobre “bondade” é irônico e, na prática, a opressão persiste de forma disfarçada. O “chicote” citado no texto deixou de ser literal, mas a violência concretiza-se agora por meio da exploração, do controle sobre moradia e do impedimento do progresso social.

Segundo Evanildo Bechara, figuras como a ironia e o eufemismo são usadas para mascarar a verdadeira intenção do discurso, algo evidenciado quando o texto suaviza as condições de exploração, chamando-as de “bondade”.

Por isso, a afirmativa D (“o povo não ficou livre, pois o chicote permanece em forma de violência”) está correta: a liberdade foi apenas aparente, pois mecanismos de dominação permanecem, mudando apenas de forma.

Análise das alternativas incorretas:

A) Sugere que a posse da terra decorre da bondade dos donos. Errado: o texto mostra que a concessão de terras é condicionada ao interesse dos donos e serve ao controle, não à verdadeira generosidade.

B) Afirma que sem essa suposta bondade, o povo estaria perdido. Errado: o texto deixa claro que essa “bondade” é interesseira, pois depende do trabalho dos ex-escravos para manter a produção.

C) Diz que o povo preferiu ficar pela dificuldade de moradia. Errado: embora haja menção à dificuldade de encontrar moradia, o texto deixa claro que a permanência ocorre sob coação, com direitos limitados, configurando uma liberdade ilusória.

Dica estratégica para concursos:
Fique sempre atento a expressões ambíguas ou irônicas. Pergunte-se: o enunciado do texto é sincero ou há subtexto? Esse cuidado afasta muitos erros por interpretação superficial, além de ser uma exigência constante em provas.

Conclusão:
O texto utiliza uma linguagem que aparenta benevolência, mas mantém a opressão – compreensão essencial para marcar a alternativa correta, recorrendo à inferência e leitura crítica, como orienta a norma-padrão e os principais manuais de referência.

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