Compare “Com licença poética” de Adélia Prado com a primeira...
Texto 2 para as questões 36 e 37.
Com licença poética
Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra
homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Disponível em https://wp.ufpel.edu.br/
Compare “Com licença poética” de Adélia Prado com a primeira estrofe do “Poema de Sete Faces” de Carlos Drummond de Andrade.
Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
(Carlos Drummond de Andrade)
É percebível, no próprio título do poema “Com licença poética”, que Adélia Prado estabelece um diálogo com “Poema de sete faces” de Carlos Drummond de Andrade, ao anunciar um pedido de licença para entrar no universo drummoniano.
O recurso presente nessa intertextualidade pode ser considerado:
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Tema central da questão: O foco é Interpretação de Textos, especificamente em intertextualidade, com ênfase no conceito de paródia. É fundamental reconhecer diálogos entre textos literários e distinguir tipos de relações intertextuais.
Justificativa da alternativa correta (C) Paródia): A paródia é um recurso de intertextualidade que cria um novo texto a partir de outro existente, mas com ressignificação, frequentemente irônica ou crítica (cf. Bechara; Hutcheon). Em “Com licença poética”, Adélia Prado começa com estrutura semelhante ao “Poema de sete faces” de Drummond (“Quando nasci, um anjo [...]”), mas a abordagem e o ponto de vista são modificados, especialmente para situar o eu lírico feminino e suas reflexões. Esse diálogo se dá pela subversão e criação a partir do modelo original — essência da paródia.
Regra/estratégia: Sempre que encontrar um texto que imita, transforma ou questiona outro de forma criativa, pense em paródia. Dica: não confunda paródia com mera cópia literal!
Análise das alternativas incorretas:
A) Citação: Implica transcrever literalmente parte de outro texto, normalmente indicada entre aspas — o que não ocorre aqui.
B) Brincolagem: Não é termo da teoria literária; provavelmente um distrator ou erro, fique atento a palavras desconhecidas na prova.
D) Epígrafe: É uma citação colocada no início de um texto para contextualizar, mas não há reprodução direta nem função de epígrafe.
E) Plágio: Corresponde à apropriação indevida de produção alheia, sem autorização ou transformação. Na paródia, há diálogo criativo — portanto, não se caracteriza plágio.
Elementos centrais do trecho: Adélia Prado retoma e reinventa verso de Drummond, apresentando outra perspectiva (a feminina), ressignificando o papel do anjo e do destino. Esse gesto de “licença poética” ressalta o caráter parodístico do poema e evidencia o conhecimento literário exigido em concursos.
Resumo para provas: Identifique paródia quando houver transformação criativa, desconstrução ou questionamento lúdico de outro texto, e não apenas reprodução literal.
Referências: Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), Linda Hutcheon (A Teoria da Paródia).
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