Se você diz a alguém que estuda piadas, o primeiro efeito
que produz ainda é o riso. É uma pena que seja assim, porque
as piadas são de fato um tipo de material altamente interessante.
Por várias razões.
Em primeiro lugar, as piadas são interessantes para os
estudiosos porque praticamente só há piadas sobre temas que
são socialmente controversos. Assim, sociólogos e antropólogos
poderiam ter nelas um excelente corpus para tentar reconhecer
(ou confirmar) diversas manifestações culturais e ideológicas,
valores arraigados.
Em segundo lugar, porque piadas operam fortemente
com estereótipos. Assim, fornecem um bom material para
pesquisas sobre “representações”, por exemplo. Possivelmente,
qualquer estudioso tenha o direito de afirmar que tais
representações são grosseiras demais para revelarem qualquer
fato significativo. Mas estará enganado. De fato, elas revelam
que, frequentemente, discursos operam mesmo com
representações grosseiras, estereotipadas. E que, portanto,
muitas ações sociais são realizadas com esse frágil fundamento
– não dar emprego a determinados tipos de pessoas por causa
de seu sotaque ou da cor de sua pele ou do seu tamanho, por
exemplo.
Em terceiro lugar, as piadas são interessantes porque são
quase sempre veículo de um discurso proibido, subterrâneo, não
oficial, que não se manifestaria, talvez, através de outras formas
de coletas de dados, como entrevistas. Outra face da mesma
característica é que as piadas veiculam discursos não explicitados
correntemente (ou, pelo menos, discursos pouco oficiais).
POSSENTI, Sírio. Os humores da língua. Campinas: Mercado de Letras. 1998. p. 25-26.
No período “Em primeiro lugar, as piadas são interessantes
para os estudiosos porque praticamente só há piadas sobre
temas que são socialmente controversos”, a forma verbal
“há” permanece no singular porque o
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