Existe uma língua para ser usada de dia, debaixo da luz
forte do sentido. Língua suada, ensopada de precisão. Que nós
fabricamos especialmente para levar ao escritório, e usar na
feira ou ao telefone, e jogar fora no bar, sabendo o estoque
longe de se acabar. Língua clara e chã, ocupada com as
obrigações de expediente, onde trabalha sob a pressão exata e
dicionária, cumprimentando pessoas, conferindo o troco,
desfazendo enganos, sendo atenciosamente sem mais para o
momento. [...] Língua diária; isto é, língua à luz do dia. Mas no
entardecer da linguagem, por volta das quatro e meia em nossa
alma, começa a surgir um veio leve de angústia. As coisas
puxam uma longa sombra na memória, e a própria palavra tarde
fica mais triste e morna, contrastando com o azul fresco e
branco da palavra manhã. À tarde, a luz da língua migalha.
LAURENTINO, André. A lua da língua. In: CAMPOS, Carmen Lúcia; SILVA,
Nílson Joaquim da (coord.). Lições de gramática para quem gosta de literatura.
São Paulo: Panda Books, 2007. p. 96-9.
Considerando a organização global do texto, percebe-se
que nele predomina a sequência textual